SWR BARROSELAS METALFEST 2025: A cruzada etílica dos guerreiros do aço (PART I)
Por João Nox
Imagem por Diogo Azevedo
e Francisco Moura
05 – Maio- 2025
Mais uma vez, a semana santa da música pesada e das mil cervejas voltou a acontecer na pacata terra de Barroselas.Os 25 anos da rebelião dos guerreiros do Aço, a meca do Heavy Metal português, o Natal dos metaleiros em terras lusitanas.
O SWR Barroselas Metalfest 2025 trouxe a todos os fãs de violência auditiva um cartaz incrível (como é tradição) e toda a gente com bom gosto meteu férias ou faltou ao trabalho para peregrinar até ao norte e assistir a mais uma edição do melhor festival do país.
Aqui fica registada a minha perspectiva desta edição do Barroselas, diluída por um tsunami de finos e das vibes apocalípticas que todo o português sentiu na passada segunda-feira (vocês que foram acumular papel higiênico OUTRA VEZ sabem do que estou a falar).
Chegamos por volta das três da tarde e montamos a tenda mesmo no meio do acampamento, onde se pode ouvir trinta afters diferentes e conversas de merda até às oito da manhã em todas as direções.
Deambulamos pelo mato para cumprimentar todos os irmãos do aço que não víamos desde o ano passado, conversa, bebida e outras coisas para matar tempo até ao início das hostilidades (para quem não é do metal, isto quer dizer que a música vai começar).
Com uma visão já enevoada pela tarde de bebedeira, fomos ver a primeira banda do festival e eu tenho muito a dizer sobre esta banda.

Tenho uma vaga memória de já ter visto algures nas minhas viagens uma banda chamada M.I.L.F. e na altura, a minha opinião deste concerto não foi favorável. Mas isto foi há anos atrás e eu não liguei os pontos entre esse acrônimo e o nome da primeira banda do Barroselas, “Music in Low Frequencies”. – O logo da banda também parece ter mudado e deve ter mudado mais do que isso porque eu não me lembro do Barroselas começar tão bem como neste ano com os bracarenses M.I.L.F. ou Music in Low Frequencies.
Não estava à espera que a primeira banda fosse uma das melhores do festival, mas aconteceu, fico feliz. A mistura de sludge com death metal criou uma atmosfera tenebrosa e aliciante ao mesmo tempo. A música por si só e a presença de palco da banda eram suficientes para este efeito, mas isto é Barroselas, vamos mais longe um bocadinho.
Portanto os M.I.L.F. penduraram uma miúda com ganchos (ao estilo Hellraiser) no teto, ela foi içada lentamente com uma corda e olhos vendados e ali ficou, a flutuar e a assombrar o palco durante todo o concerto.
Uma amiga minha chegou mais tarde e não viu a artista a ser espetada e colocada no ar. A reação dela quando viu a “boneca” a mexer-se foi um momento alto do festival.
Este truque encaixou perfeitamente na sonoridade da banda, recomendo vivamente que vejam “Music in Low Frequencies” ao vivo se tiverem a oportunidade. É uma banda que me dá esperança na música nacional, e ainda vamos ter muito mais disso nesta reportagem.






Agora tenho boas e más notícias para fãs de todas as outras bandas que tocaram no dia 0 deste Barroselas. As más notícias é que perdi todas. As boas notícias é que já faço isto há quase 10 anos e portanto já vi todas, várias vezes.
Já agora, para quem não está a par, o dia 0 do Barroselas, consiste numa batalha de bandas nacionais pelo privilégio de ir tocar ao Wacken Open Air.
Os próximos concorrentes foram os Namek, uma banda que tem duas coisas em comum comigo, adoram grindcore e Dragon Ball.
Provavelmente de todas as que perdi neste dia, esta foi a que me custou mais. Uma banda clássica do underground português que nunca desilude ao vivo. Felizmente a minha ausência não foi grave. O concerto deve ter sido certamente fodido, visto que os “Namek” foram os vencedores da batalha, e vão representar Portugal no festival Pai do metal mundial.
De seguida tocaram os Humanart, possivelmente a primeira banda de Black Metal que vi na vida há séculos atrás no Maiact com os Moonspell. Eles fizeram os Moonspell parecer meninos, mas não se chateiem que eu também gosto de Moonspell (às vezes).
Para terminar, tocaram os Pitch Black, outro clássico nacional, neste caso do thrash metal, e já sabemos que quando há thrash, o povo fica particularmente excitado. Pelos vídeos do instagram que me mostraram mais tarde, parece ter sido um festão.
Mas houve uma razão para eu especificamente ter perdido 80% do cartaz do dia 0. Como sabem, é fisicamente impossível para metaleiros assistirem a um concerto sem uma cerveja na mão. No entanto, este ano voltamos a fazer parte do cartaz, responsáveis pelo after do dia 0. Tivemos que controlar o impulso de ingerir álcool no dia 0 do Barroselas, uma tarefa de Sísifo.
Assim como dita a regra dos Tankard, começamos a beber (mais) apenas quando começou a festa. Fechamos o dia com o regresso do After-Party da DOD Gigs e como responsável por esta porção do festival, não vou estar aqui a lamber o meu próprio cu. Espero que tenham gostado. Um dos DJ’s não se lembra de metade, mas o feedback foi bom.










Acordamos cheios de alegria no dia seguinte, prontos para mais uma coça no fígado e nos ossos.
Antes das bandas, ocorreram as primeiras Olimpíadas da DOD Gigs que incluíram Beer Pong, corrida de enrolar cigarros e uns rounds de roleta russa. Poucos sobreviveram mas suficientes.
Como estivemos a organizar este evento, não foi possível apanhar a primeira banda do dia, pois tivemos que ir guardar o material e tratar de outras coisas. As minhas desculpas aos Godless que vieram da Índia de propósito para eu os ver.
Quando chegamos ao palco estavam a tocar os portugueses Dolmen Gate que com o seu Heavy Metal épico atraíram imensa gente do acampamento, bêbada e sóbria, o que não é fácil a estas horas da tarde. Estava até bastante composta a audiência.
É sempre bom ver uma banda com uma sonoridade mais clássica a atrair tanta gente num festival em que a maioria só quer velocidade e violência. Eu também quero, mas às vezes é bom variar. A vocalista fez-me lembrar de uma versão metaleira da lendária Elaine Benes e tudo que me faz lembrar de Seinfeld é positivo.
Os Dolmen Gate até já têm um episódio no mitico POÇOCAST. Está tudo a correr bem para eles e desejo-lhes tudo de bom.
Algumas cervejas depois começou a primeira banda do dia que eu não queria perder nem que a tua mãe me estivesse a pedir um filho.





Continuando com bandas portuguesas do underground que estão a entrar em ERUPÇÃO e a criar uma enorme CRATERA fumegante de peso, os lisboetas Phenocryst abriram o palco principal do Barroselas.
Se és fã de death metal e ainda não ouviste falar desta banda, faz um favor aos teus ouvidos e mete qualquer um dos dois lançamentos a tocar. Uma banda verdadeiramente inspirada pelas forças primordiais da violência.
O vocalista de Phenocryst olhou para toda a blasfémia e violência gratuita do Metal e pensou “não caralho, eu vou falar de vulcões”.
Sendo o próprio homem um vulcanólogo formado (ouvi dizer por aí), o resultado da mestria da terra e da música culminou numa das melhores bandas do death metal nacional, tanto ao vivo como em estúdio. Sem dúvida um concerto que moveu placas tectônicas.
Só não foi a minha terceira vez porque cheguei atrasado ao último concerto deles, e ainda por cima era a única banda que eu queria ver. E para os fãs de brutal death metal, sim, aquele lindão na guitarra é o Santana de Analepsy.
Saltamos do escaldante para o molhado. O quão molhado vocês perguntam? Um oceano inteiro! Pela terceira vez, os alemães Ahab trouxeram o seu funeral Doom náutico até Portugal.- A primeira vez foi há 10 anos no Barroselas, a segunda no Under the Doom.
Desta vez tocaram apenas três músicas em vez de quatro, mas também evoluíram do palco 2 (rip) para o palco 1. Eu como grande fã das profundezas rificas de “Ahab”, recomendo fortemente. – Foi um concerto de grande sacrifício, pois a guitarra especial do vocalista partiu-se durante o voo. Por outro lado, tocaram com uma guitarra com stickers da SUB/SOLO!!!





Quando voltei ao palco, estava a dar o festão dos suecos Gehennah. Com o black thrash mais porco de sempre, os Gehennah só fazem música sobre duas coisas: ser um bêbado de merda e bater em posers.
Óbvio que neste ambiente, toda a gente curtiu á grande o festão deles. Diria até que foi mais energético que Tankard o ano passado, mas temos que dar um desconto ao Geremia, pois estava com o joelho todo fodido e foi um milagre terem tocado.
Agora vem o momento que para mim marcou profundamente esta edição do Barroselas, a ejaculação precoce que se fez sentir por todo festival até ao último dia. Eu não digo isto para me gabar, nem sequer o considero um motivo de orgulho, mas eu já vi mesmo muitos concertos ao longo dos anos. Já vou a Barroselas desde 2012, estive em vários outros festivais e sigo o underground local desde 2009.
Muitos foram concertos de merda, muitos foram concertos incríveis. Mas a partir do momento que os Repulsion começaram a tocar, eu sabia que estava prestes a ver algo que ia diretamente para o meu top 3.
Antes do Barroselas, assisti ao último Poçocast com o Possessus, em que ele descreve como disse aos Veigas para trazer esta banda lendária a Portugal. Mesmo com todos este hype, o concerto de Repulsion explodiu com todas as minhas expectativas e foi mais além.
Nunca experienciei uma chapada sonora tão implacável na minha vida, aqueles gajos tocam a uma velocidade olímpica. O Lendário “Horrified” ao vivo é ainda melhor do que em sonhos molhados.
A certa altura, o Scott Carlson perguntou aos metaleiros de Barroselas se eram fãs de Death e do Chuck Schuldiner e toda a gente confirmou que sim. E o Scott responde “escrevemos esta música no quarto dele”. Foi aí que soube que íamos todos morrer na próxima música
Começaram a chover pessoas na linha da frente enquanto o mosh pit tentava furiosamente acompanhar o ritmo frenético da bateria. Acho que não há mais palavras possíveis para descrever o quão lindo foi Repulsion, vão ao google e vejam a capa do único álbum da banda, é a minha cara depois de levar com isto e vai ser a vossa também.
O momento mais aborrecido do set deles foi sem dúvida o cover de Venom, e se a parte mais aborrecida de um concerto é o cover de VENOM, então é o caminho certo. O cover da “Death Dealer” dos Slaughter, foi muito mais divertido.


Depois de recolher os meus neurônios do chão, fui até ao acampamento matar a sede. A conversa estava interessante e ficamos por lá a ouvir Steelharmonics ao longe.
Para quem não sabe, Steelharmonics é a banda mais local do cartaz. Literalmente a banda filarmónica de Barroselas que toca clássicos de Heavy Metal e que em tempos marchavam pelo festival.
Provavelmente a banda mais talentosa do cartaz, cheia de músicos formados em conservatórios de renome e que não bebem para esquecer que Bolt Thrower já não toca ao vivo.

A última banda da noite (achava eu na altura), foram os italianos Golpe que trouxeram bandeiras Antifa para o palco para demonstrar o seu desagrado para com o fascismo. Naturalmente, alguém achou que seria engraçado fazer a saudação do homem do bigode quadrado mesmo no meio do mosh pit. Ouvi dizer que conseguiu evacuar com todos os dentes, por um triz.
Uma boa decisão, visto que o crust punk d-beat dos “Golpe” criou um mosh pit extremamente propício para a exterminação de totalitários. Um excelente concerto para encerrar o palco 2, numa noite de Barroselas em que já era 25 de Abril.
E estava lá o Esteves! Quem segue o underground portugues sabe muito bem que o Esteves só toca em bandas brutais, alguns desses projetos já extintos infelizmente. Voltava a ver todos ao vivo. Vamos fazer um GoFundMe para o Esteves trazer de volta os outros projectos fixes que ficaram defuntos. Sem dúvida o maior indicador de que “Golpe” é música de qualidade.







Fomos à tenda com intenções de voltar para o after da Thunder & Echo, a estreia exclusiva do nosso amigo Chico.
Mas fomos surpreendidos por toda a gente no meio da rua a olhar para a parede.Seguimos o olhar do povo e vimos que os brasileiros TEST estavam prestes a dar um concerto em cima da bilheteira do festival.
Quem esteve cá nos 20 anos de Barroselas em 2017, quando a espada foi inaugurada, sabe que isto é perfeitamente normal. Neste ano os Test tocaram no palco 3, entre os palcos 1 e 2 e ainda tocaram dentro do SWR café, o que na altura era inédito.
Disseram-me que os TEST só não tocaram dentro da minha tenda durante o After da DOD Gigs porque a banda tinha acabado de chegar e estavam demasiado cansados.
Fiquem atentos à parte dois da reportagem do SWR Barroselas 25 para descobrirem todos os locais fantásticos e exóticos onde os TEST tocaram a seguir.

