"O Peso da Vida: Agitat Solum//Thrownness//Lord of Confusion"

Por Viviana Coelho

Imagem por Mariana Katana

28 – Março – 2026

Na noite de 28 de Março , as portas do Texas Bar reabriram gloriosamente, para uma noite de caos e enterro, quem entrasse ali naquela noite sabia que também só entrava distorção.
O ar já se sentia pesado ainda antes do primeiro acorde e quando finalmente se sentiram as primeiras frequências dos Agitat Solum, foi como se alguém tivesse fechado as janelas para o mundo exterior e nem foram necessárias palavras para se sentir o “preparem-se”. Algures na história o Jus Oborn e o Matt Pike tiveram 3 filhos, e esses filhos certamente são os Agitat Solum . Com riffs arrastados, viscosos, começam a abrir as fendas do subterrâneo devagar com o peso de cada riff downtuned.

Um som sujo, perverso, nascido de amplificadores potentes a altos volumes e pedais sludgy. Arrancam com uma força bruta de uma nuvem de feedback para riffs psicadélicos, criativos, com energia punk crua, contaminando o público com alta energia, certeza de moches e cabeças que começaram rapidamente a ceder ao peso. 

Os três músicos no meio do caos relembram sempre de onde vem e quem são, ao passar uma mensagem anti-fascista, de união e respeito ao próximo. Acabam com um poderosíssimo concerto e os burburinhos fazem-se ouvir de um público a querer mais.

Logo de seguida, sobe ao palco a segunda banda, os Thrownness! E depressa empurra tudo para a frente. Sensações de colisões cósmicas a relembrar o melhor da união entre o post metal e o sludge atmosférico, fazendo com que a sala aqueça ainda mais.

Respira-se em uníssono e desde o primeiro momento sentimos corpo no chão a derreter e a elevar-se ao mesmo tempo, esquecemo-nos onde estamos e a sensação é de estarmos a flutuar num lugar onde não há tempo nem espaço nem lugar algum. Uma pujança existencialista e oficialmente entramos no Void . Um momento em que tudo encaixa. O calor, o som , uma comunhão bruta e catártica . Hipnótico, intenso, nascido numa atmosfera emocionalmente bruta, descreve-se como um assalto sónico intenso.

A mensagem anti-fascista, inclusiva para todos, de segurança e amor relembra-se a meio do concerto pela banda nas palavras da baixista, no meio de um feedback que nunca deixou parar a intensidade, nem nos momentos mais calmos. No final, quando a ultima nota se fez ouvir, os sons dos amplificadores desvanece-se o público permanece no mesmo local, a precisar de alguns momentos para se recompor. Devastadoramente encantador.

Para fechar o ritual, já a noite ia longa, quando os Lord of Confusion entram neste palco que já lhes é tão familiar. O Doom entra logo fortíssimo, sem perdoar. A apresentar o seu novo álbum “The Weight of Life”, um nome que certamente descreve muito bem estas novas malhas e a sua nova etapa como banda. Chegamos assim ao fundo do subterrâneo da noite.

Com riffs ocultistas, solos psicadélicos e um peso hipnótico com vozes catedrálicas bem pesadas, os Lord mostram o seu conforto em palco e a sua união com o público. Nos solos épicos de guitarra , ouvem se os gritos de admiração do público já em êxtase. As moches foram certas e as cabeças abanaram a um ritmo pesado do inicio ao fim. Uma agonia confortável de desespero sente-se nos teclados e nas vozes, enquanto que as batidas e o baixo seguem cavalgantes, a guiar todos mais fundo para um peso metálico, onde impera o doom cruel e impiedoso.

O concerto acaba com o já habitual tributo a late 80s Pentagram, e aí foi certo que já não existia distinção entre banda e público, só uma moche coletiva, onde todos cantavam sem filtros todos os seus pecados. “Your life in chaos, no control”.

Com zumbidos nos ouvidos e suores frios nas costas, a desordem da noite acaba e o público segue revigorado no final de três intensos concertos para a rua com uma sensação de ter estado em um ritual, um culto, uma ode ao Doom.