Entre o Palco e o Asfalto: Skate rock não deixa dormir

Texto por Mia Nieves

Imagem por  Fernando Paz e 

Gonçalo Vilardebó

24 – Junho – 2025

Há bandas que surgem para preencher lacunas, Os Overcrooks nasceram para rasgar a lacuna ao meio. Com rodas gastas do asfalto brasileiro e riffs carregados de urgência, a banda sediada em Portugal alimenta-se do cruzamento inevitável entre skate e punk — dois mundos onde cair e levantar é parte da regra, e não da exceção. DIY não é estética, é sobrevivência. Nesta entrevista, falámos com Jean Lucca (voz e skate na veia) sobre origens, underground, viver sem travões e por que razão o Skate Rock Don’t Let Me Sleep é mais do que um lema, mas sim uma condição vital.

1. Introdução e Origem

Overcrooks tem uma trajetória vincada pela fusão entre o skate e a música, trazendo consigo a energia das ruas do Brasil para o underground português. Entre riffs acelerados e uma atitude DIY, a banda tem conquistado espaço com um som cru e autêntico.

Como nasceu a banda e o que motivou a mudança para Portugal?

Overcrooks surgiu pela vontade de fortalecer a conexão entre punk rock e skateboarding, algo que pra mim (Jean Lucca) sempre foi uma conexão natural, onde o punk rock é uma faísca que bota fogo nas sessões de skate. Eu já tinha uma banda, no Brasil chamada Fulerall Skate Rock, e no pós pandemia em Portugal eu sentia muita falta de rolês e eventos que houvesse o skate e o punk rock conectados, então a banda foi uma forma de suprir essa minha necessidade pessoal, que hoje vejo que não era só minha, mas de várias pessoas que veem participando do projeto e de toda cena.

Quais foram as influências mais determinantes para a sonoridade e estética da banda? Alguma referência fora da música que tenha sido essencial para o vosso estilo?

Skate e música andam de mãos dadas desde sempre, porém hoje em dia o cenário do skate é muito voltado para a música rap, principalmente aqui em Portugal onde são poucas as bandas que possuem integrantes realmente ligados a cena do skate, então quando montei a banda foi natural para nós estarmos posicionados no cenário do skate, seja tocando em eventos de skate como trazendo skatistas para os shows de punk rock, algo que sempre fez parte do nosso propósito, juntar os amigos pra curtir um som, fazer uma bagunça e criar um ambiente onde mais pessoas se sintam a vontade de se envolver e participar e colaborar para este movimento.

Somos uma mistura de influências que vai desde os riffs simples dos Circle Jerks até uma pegada mais pesada como Slayer, mas temos também influências de bandas como Los Olvidados, The Faction e Grindline The Band, que são bandas clássicas formadas por skatistas.

2. Skate Rock: Punk na Calçada

A relação entre skate e punk sempre foi simbiótica – duas culturas que se alimentam de rebeldia, velocidade e pela procura pela liberdade. Hoje, com a crescente comercialização do skate e a fragmentação do punk, questionamo-nos constantemente se essa conexão continua tão forte quanto antes.

Como veem a relação entre o skate e o punk nos dias de hoje? 

O skate e o punk rock possuem dois lados hoje em dia, possuímos ambos cenários sendo super explorados comercialmente, onde se criam “estrelas” que são idolatradas por um público que acaba por se tornar um espectador, mas por outro lado, isso fortalece a cena underground, onde todos são bem vindos e tem algo para acrescentar a cena, no underground todos são estrelas que influenciam e inspiram uns aos outros, seja no skate através da construção de skateparks diy, produção de vídeos que divulgam a cena local ou no cenário musical onde temos diversas bandas emergindo e junto com elas temos artistas criando artworks e zines que divulgam toda essa atmosfera. Basicamente, o mainstream apenas fortalece o underground, tanto no skate como na música.

O skate influencia diretamente o vosso som e letras, ou a conexão é mais filosófica e de atitude?

Hoje na banda temos dois skate rats, e nela já passaram diversos outros, não conseguimos evitar em ter skatistas na banda, essa é a nossa rede de pessoas, é o que somos e com quem andamos. Apenas cantamos nossa vida, e essa é a única realidade que conhecemos e podemos falar sobre, skateboarding pra nós é uma necessidade, andamos não só porque gostamos, andamos porque não conseguimos não andar de skate, se conseguíssemos já tínhamos parado de andar, mas… Skate Rock Don´t Let Me Sleep.

3. A Essência

O novo single “What It’s All About” traz a energia explosiva que define a banda. Mas, para além do som, vocês enquanto banda e baseado em todos os outros lançamentos, carregam um discurso que reflete a inquietação da juventude e o sentimento de deslocamento.

O que guia as vossas composições? São mais um reflexo de experiências pessoais ou uma resposta ao que acontece no mundo ao vosso redor? As vossas músicas abordam a complexidade da juventude e a alienação. Se tivessem que transmitir uma mensagem direta a quem vos ouve pela primeira vez, qual seria?

Acho que Overcrooks é um reflexo musical do que nós vivemos, seja das nossas experiências pessoais, seja pela revolta em ver merdas acontecendo no mundo. Estamos em um momento na sociedade onde podemos acompanhar as notícias do mundo de forma instantânea, políticos que vivem numa realidade paralela e brincam de fazer guerras e propagar ódio, ou então pessoas hipócritas que pregam paz e amor mas utilizam de seus privilégios para produzir riqueza em cima de imigrantes ou qualquer pessoa que esteja em situações de fragilidade… E que tal os dados de feminicídio, homofobia e xenofobia? Tudo isso é gasolina pra nossa música junto com nossa energia do skate, punk rock é revolta sonora e o skateboard é o grito da rua, nós só temos o dia de hoje pra fazer o que queremos, então se queremos começar a viver intensamente, ser pessoas melhores e começar a mudar o mundo através dos nossos pequenos círculos de amigos, então a hora é agora!! Life is temporary so enjoy the ride.

O que podemos esperar do videoclipe de “What’s It’s All About”? Como traduziram a vossa identidade para o audiovisual?

Temos um novo vídeo clipe a sair entretanto e penso que transmite a ideia da banda, feito mais uma vez entre amigos e sem budget, a ideia sempre foi fazer acontecer com as ferramentas que temos, poucos acordes e muito barulho. Falamos sobre coisas sérias mas falamos merda pra caralho, e o vídeo reflete justamente isso, é uma paródia sobre a realidade que estamos inseridos, cultura de rua com humor mas muita verdade.

4. Cultura e Underground

Sendo parte ativa do underground, testemunham os desafios e conquistas de uma cena que, apesar de resiliente, enfrenta dificuldades constantes. Da cena brasileira à portuguesa, carregam uma visão ampla sobre o que significa fazer música independente.

Como percebem o apoio à música underground em Portugal? Sentiram diferenças entre as duas cenas ao longo da vossa trajetória ?

A cena underground em Portugal é animal, existem muitas bandas boas e sempre há outras bandas europeias vindo tocar por aqui, no Brasil por ser um país muito grande as bandas que tocam no circuito acabam sendo bandas brasileiras, ou então bandas gringas já renomadas. Somos uma banda pequena e gastamos mais dinheiro do que fazemos, bebemos pra caralho e gostamos de festa, e pra melhorar andamos de skate e queremos curtir, só um patrocínio de cerveja pra nos tirar da falência iminente.

Existe algo que nunca imaginaram fazer, mas que o underground vos obrigou a encarar de frente ?

Fomos convidados pra ir tocar em um festival em Biarritz na França e o Léo, nosso guitarrista, não tinha passaporte e nem residência válida para sair de Portugal, mas o plano de ir pra França tocar era tão bom que não foi o risco de extradição da Europa que segurou o nosso “selvagem” haha

5. Perspectivas para o Futuro: O Que Vem a Seguir?

Estando em constante movimento, e 2025 promete ser um ano intenso. Entre novos lançamentos e palcos a conquistar…

O que podem revelar sobre os próximos passos da banda?

Esse ano tem sido muito style para nós e estamos apenas em abril… Tocamos com bandas que são grandes referências para nós como Descendents, Ratos de Porão e  No Fun at All, tocamos em festa pra skatista fedido e nas próximas semanas vamos lançar o videoclipe do single que deu o pontapé inicial do nosso 2025. 

Temos já alguns festivais para tocar nesse verão e diversas datas ainda para serem anunciadas, e nesse meio tempo de shows e vida pessoal estamos trabalhando no nosso próximo álbum que ainda sai esse ano e que vai ter várias surpresas, mais uma produção DIY OC.

Para terminar: definam OC em três palavras.

Overcrooks em três palavras? Skate Rock Don´t Let Me Sleep!! Ops, passou hehe

Se há algo que os Overcrooks nos ensinam é que não há fórmula para existir no underground,basta haver vontade, barulho e amigos com quem partilhar a pancada. Entre sessões de skate, riffs que sangram com honestidade e videoclipes gravados com zero orçamento e cem por cento coração, a banda mostra que viver intensamente é, acima de tudo, um ato de resistência. E se ainda te perguntas “What’s It All About?”, talvez esteja na hora de parares de ver e começares a viver. 

No palco, ou na calçada: Skate Rock Don’t Let US Sleep.

PS:Se ainda não os apanhaste, este ano temos encontro marcado no Morte ao Silêncio e no Warm up do Sonic Blast, mas falaremos disso mais tarde *