The Youths em Entrevista: O Regresso, a Essência Punk e o Futuro da Banda

Texto por Mia Nieves

Imagem por Carlos Carvalho

08 – Fevereiro- 2025

Após anos de pausa, The Youths voltam a fazer barulho com a mesma energia crua que os definiu. No passado dia 8 de fevereiro, a banda subiu ao palco do Vortex, em Lisboa, marcando oficialmente a sua reestreia.

Em entrevista à SUBSOLO, falam sobre o início da banda, a pausa, o impacto do underground e os planos para esta nova fase. Entre nostalgia e inovação, garantem que continuam fiéis à sua essência: “demasiado punk para o hardcore, demasiado hardcore para o punk”

  1. A origem

Remetendo ao historial da banda, para quem não conhece ou para quem já vos tinha dado “por esquecidos”, queremos explorar o que está por trás da vossa identidade — desde a formação até às influências que moldaram o vosso som e estética

Quais foram os pilares que definiram a banda?

Sota: A banda começou em 2006 e a ideia foi fazer um punk muito inspirado pelas bandas americanas do final dos anos 70/início dos 80, uns Wipers ou Circle Jerks.

PP: Na altura todos tocávamos em bandas muito diferentes mas a vontade de fazer algo nesta raiz juntou-nos.

 

Como evoluiu a vossa sonoridade ao longo do tempo? E, no meio desse percurso, o que continua a impulsionar a vossa criação?

Sota: Diria que nunca evoluiu muito. Sempre fomos fazendo as músicas tendo as mesmas referências. 

PP: Sim, acho que a coisa que mudou pelo caminho foi que fomos aprendendo que podemos experimentar fazer uma ou outra coisa diferente mas que o som, no fundo, mantém sempre a nossa identidade. Acho que fomos aprendendo a criar o nosso pó mágico que, basicamente, é a música que nos faz feliz. 

      1. Processo criativo

No universo da música underground, cada tema carrega mais do que acordes e letras – traz consigo uma história, uma inquietação, um reflexo do que nos move por dentro e por fora. Seja em estúdio ou  improviso, o processo criativo é um espaço de confronto e descoberta, onde a identidade sonora se constroi entre o instinto e a intenção.

Alguma música do vosso repertório que tenha uma história especial ou que tenha sido um desafio criar?

Sota: Talvez a Generationless seja a música mais especial, penso que até foi mencionada uma vez pelos Glokenwise como sendo uma música que gostariam de ter feito

O que guia as vossas composições? É a necessidade de expressar algo pessoal, uma reação ao mundo ao redor, ou ambos?

Sota: Sim, Ambas as coisas. Não vivemos numa bolha, o mundo no geral é a nossa inspiração. Por isso acabamos por ter letras sobre assuntos e situações pessoais como a Decontrol ou Alone and Smile ou sobre situações políticas e sociais como a All Flags Black, The Walls ou The Cross.

Já sentiram/sentem a pressão de “polir” o som ou a imagem para alcançar mais público? Como lidam com isso?

Sota: Nunca sentimos isso e sempre fizemos as coisas dentro daquilo que gostamos, sem pensar muito em encaixar ou ser aceites. Várias vezes brincamos a dizer que somos demasiado punk para a cena hardcore e demasiado hardcore para a cena punk.

PP: Acho que a nossa atitude foi mais de confiança perante o nosso som, porque sabemos que em primeira instância fazemos porque nos dá prazer tocar este tipo de som. Não sentimos pressão, só de tentar fazer o melhor dentro da própria banda para fazer músicas que achamos altamente.

  1. Temas e mensagens

A música tem o poder de captar inquietações, dar voz a sentimentos difusos e refletir o espírito de uma geração. No vosso caso, os temas parecem mergulhar na complexidade da juventude e na sensação de alienação, ressoando com quem sente o peso do mundo sem perder a urgência de o questionar.

Que mensagem querem deixar ao público? 

Sota: Que pensem na sua vida. Que façam o que seja melhor para eles mas que não fodam a vida de ninguém. 

Até que ponto a vossa música se torna um veículo para abordar questões sociais ou políticas de forma mais direta?

Sota: É claro que temos posições políticas, várias letras são sobre questionar e expressar o que sentimos sobre o que está ao nosso redor,  destruir barreiras ou valorizar aqueles que travam lutas diárias. Obviamente que não só não aceitamos como nos erguemos pela luta contra o fascismo, a xenofobia, o racismo e sexismo.

  1. O Hiato 

As pausas, voluntárias ou não, fazem parte do percurso de qualquer banda.Durante o vosso hiato, como foi a vossa relação com a música…

Continuaram a compor, exploraram outros projetos ou sentiram a necessidade de um afastamento total? 

Sota: A banda sempre foi um projecto mais secundário de pessoas que têm outros projectos ou bandas maiores. O afastamento foi simplesmente uma questão de prioridades.

PP: Eu sempre continuei com vontade de voltar a ter uma banda a bater forte, lancei música internacionalmente numa área mais eletronica, o Vairinhos tem NECRO, LOBO, COLINAS e muitas outras bandas incríveis. O Bruno toca mundialmente com XINOBI. Para além de outros projectos de vida e pessoais, é muita coisa a acontecer.

Essa pausa foi uma decisão consciente ou algo que aconteceu de forma natural? E, mais importante, o que vos trouxe de volta?

Sota: Existiram e existem outros projectos paralelos que sempre foram mais importantes.
No entanto, sempre gostámos de fazer e gravar músicas e dar alguns concertos. Tínhamos saudades e achámos que nesta altura, talvez fosse possível fazer algo com a banda e para isso convidámos também a Inês para dar um boost.

PP: Ainda estamos no princípio, a descobrir onde isto vai dar

  1. O momento do retorno

O regresso de uma banda vai para além do retorno ao palco — é um reencontro com a própria essência, agora filtrada pelo tempo e pela experiência.

Sota: Não sei se há um momento certo, foi o momento que conseguimos conversar, convidar uma pessoa nova para a banda e começar a fazer mais coisas.

PP: As coisas têm acontecido naturalmente. Se tudo correr bem, vamos ter uma atividade duradoura.

Houve uma mudança na vossa abordagem, seja no som, na mensagem ou na forma como encaram a banda?

PP: Acho que as pessoas novas trazem sempre uma energia diferente. Apesar de, em termos gerais, as coisas não terem propriamente mudado, já se vê numa música como Red Alert que estamos a explorar a que caminhos conseguimos ligar o nosso som. As mudanças não são drásticas, é um degradé que está sempre ligado à origem do nosso som.

O que podem esperar aqueles que sempre vos seguiram e aqueles que vos vão descobrir agora?

Sota: Acho que não, ou pelo menos não temos nada planeado. Vamos ser sempre estes 4 ou 5 miúdos a fazer as suas músicas.

PP: Agora que voltamos, parece mais fácil que as oportunidades surjam. Vamos ver… para já só queremos fazer mais coisas juntos.

  1. Cultura e underground

O underground sempre foi movido por resiliência, criatividade e um espírito de comunidade, mas os desafios nunca desaparecem — apenas mudam de forma.

Como veem a evolução do panorama musical independente em Portugal? Entre a luta por sustentabilidade e a busca por visibilidade, quais são os maiores obstáculos que uma banda enfrenta hoje?

Sota: Comparado com há 20 anos atrás, hoje é tudo bastante mais fácil. Felizmente há mais espaços, mais pessoas, melhor qualidade no geral. Não vejo grande dificuldade em criar música hoje em dia.
Difícil era marcar tours por carta e telefone, viajar num mundo com fronteiras e sem GPS.

Já presenciaram o desaparecimento de espaços ou projetos que marcaram a cena? Como essas mudanças influenciaram a vossa trajetória e a forma como encaram o futuro do underground?

Sota: Fizemos a banda numa altura em que tudo era muito mais DIY. Tínhamos de ser nós a procurar ou inventar espaços para tocar que nunca duravam mais de meia dúzia de meses. Isso fez-nos crescer sem grandes expectativas ou esperança, mas fez-nos donos de uma motivação que se traduz em ação.
Como respondi anteriormente, atualmente há muitos mais espaços e muito mais gente. Há também uma cena musical muito menos centralizada em Lisboa e Porto, o que acaba por ajudar a que as bandas consigam tocar mais e para pessoas diferentes. 

Pergunta aberta

Se pudessem escolher qualquer palco do mundo para tocar, qual seria e por quê?

Sota: Em Lisboa eu diria que a ZDB ou o Damas. Fora de Portugal, talvez o Ktown em Copenhaga.