Aparecer, Montar, Tocar, Desmontar, Seguir

Texto por Mia Nieves

Imagem por  Caravanana

15 – Julho- 2025

Às vezes, começa-se em movimento, sem plano fixo, sem tempo para pensar e com mais estrada do que chão firme. A história da Caravananana é exatamente essa: uma banda que nasceu dentro de uma caravana, tocou as primeiras malhas na rua, e nunca mais parou. Levam o espírito “nómada” à letra, e transformam-no num manifesto sonoro que cruza países, quebra barreiras e abana multidões.

Seja num beco, num parque, ou às portas de um festival, vivem como tocam: de forma crua, intensa e com uma vontade inabalável de espalhar som, comunidade e caos bonito por onde passam. Nesta entrevista, contaram-nos tudo — desde os começos improvisados até às aventuras no estrangeiro, das frustrações com a gentrificação ao poder transformador de ver um velhinho dançar no meio da rua. E falam com a frontalidade de quem carrega colunas às costas, mas também com a lucidez de quem já aprendeu que é possível rir e fazer da contracorrente o melhor dos palcos.

Nem sempre se começa num palco,ou numa sala de ensaios. No vosso caso, começaram quase em andamento.

  1. Como é que foi esse primeiro passo? O que é que vos deu na cabeça para se juntarem e formarem uma banda chamada Caravananana?

O primeiro passo foi um pouco sem pensar, Começamos a tocar dentro da caravana por falta de sala de ensaio e logo que fizemos músicas fomos para a rua para as mostrar. Já viviamos como ciganos do antigamente e sabíamos que pela certa que se íamos ter banda íamos estar sempre de viagem. O nome representa isso.

 

Estar em tour como uma banda independente é navegar entre o desconhecido e o caos, construir comunidade em cada cidade, lidar com burocracias invisíveis, e sobretudo, manter acesa a vontade de fazer barulho mesmo quando tudo parece conspirar contra. Vocês vivem muito o espírito “nómada”, aparecer, montar, tocar, desmontar, seguir.

2. Neste momento andam a espalhar Caravananana pelo Reino Unido, com passagem por França. Como está a aventura fora do ninho (Península Ibérica)?

Está a ser bastante gratificante, também aparecerem pessoas que n tem nada a ver com o rock ou underground  a ouvir as nossas músicas e a dançar sejam velhos ou crianças.   Também o desafio de tocar num dia em salas cheias e no outro dia em sala vazia mas não desanimamos e nos divertirmos porque estamos em sítios novos . Ainda hoje estivemos a tocar na rua e conseguimos fechar concerto a tocar a frente dum pub a pagar fixe e com bar aberto.

3. O conceito de tour também implica confrontar realidades sociais diferentes: gentrificação, repressão, desigualdades. Que cenários vos marcam mais nesse contacto direto com o ‘mundo real’ fora do palco?

Nota-se que os centros da cidade são muito parecidos uns aos outros. Só procuram servir turistas com dinheiro que se parecem todos uns com os outros. Nota-se também que o dinheiro está a desaparecer, mais pessoas a pagar tudo com cartão. Até os músicos de rua em Inglaterra tem contactless para fazerem contribuições (o que achamos um pouco surreal). Mesmo tocar nas cidades é cada vez mais complicado, estamos sempre a fazer o jogo do gato e do rato com a bófia porque as cidades so querem licenças e merdas dessas. Também  em Lisboa, Porto e Aveiro  é assim.

A reação do público, especialmente na rua, é muitas vezes o termómetro de um bairro, de um país e é aqui que sentimos a música como coletiva.

4. O que é que vos dizem os corpos que dançam (ou não) nas vossas atuações?

Na rua é muito engraçado porque tens uns crackers ou betinhos a dançar ao mesmo tempo e o rockeiro ou hipster a fazer cara feia mas o mais fixe é mesmo ver as crianças e velhinhos a dançar o nosso som. Essa é a cena mais genuína em termos de tocar na rua.

5. Como é que se gere o coletivo em movimento? Já houve momentos de fricção criativa, ou a estrada só vos une mais no sentido criativo, sendo parte fulcral para a vossa composição?

Existe todo o tipo de fricção entre nós. Temos passado os últimos 3 anos 24 sobre 24 uns com os outros, é normal haver discussões. Mas sim, a estrada gera muita criatividade, estamos sempre a mudar de ambiente. Ora nas montanhas no frio, ora na praia cheios de calor. Isso e também o facto de ouvirmos todo o tipo de musica facilita em fazer todo o tipo de músicas a partir dum riff, baseline ou batida.

Por falar em composição e processo criativo, recentemente lançaram o single “Tequilla” e um Teledisco, que acompanha “Lonely Bird”. Mesmo ambos os singles serem completamente distintos entre si, ambos têm a particularidade de nos fazer sentir, do que Caravananana é feito. É presente e remete-nos para um passado que se aproxima do futuro. 

6. O que é que mais influencia a vossa sonoridade ?

Termos estado sempre na estrada e em tour a conhecer nova malta a mostrar-nos nova música . Somos três músicos que gostam de diferentes tipo de música mas com bases muito iguais.  Como Motorhead, Black Sabbath ou Jimi Hendrix mas depois também ouvimos o Fela Kuti, Ferro Gaita ou Camaron de La Isla, muito Hip Hop como residente porta voz chileno e ya música que nos faça sentido e inspira sempre.

Estes dois singles foram gravados numa sessão no Estúdio Roma 49 em Lisboa do Bernardo Barata, baixista dos Diabo na Cruz. Foi gravado take direto, sem metrónomo, como as bandas do antigamente que curtimos fizeram. Cru e nu. Só adicionamos depois uns sopros do nosso amigo José Zambujo para dar um bocado mais de cor. 

O tele disco foi gravado entre o Porto e a nossa terra, Setúbal. Editado pelo nosso amigo André Ollie da KRX Agency. 

Tequila é sobre festança, excesso e esquizofrenia e Lonely Bird é como a ressaca do rock n roll.

Com o que já viveram, dá para imaginar um disco no horizonte? Ou a próxima fase está mais para estúdio ou mais para dormir numa praia qualquer entre datas enquanto riscam ainda mais o mapa?

 Um pouco dos dois. Em setembro vamos parar para gravar 3 singles e, como é claro, vamos continuar a tocar sem parar. Quando tivermos patrocinador logo pensamos em fazer disco, fica a dica hehehe 

A vossa presença não oficial nos festivais tornou-se essencial para qualquer verão que queira ser verdadeiramente memorável. Falamos por experiência própria: saímos do SonicBlast com aquela vontade louca de mais, e foram vocês que, inesperadamente, entregaram tudo, foram tão intensos que ninguém conseguia falar de outra coisa no Inferno das Febras. A surpresa foi ainda maior quando, quase como resposta às nossas preces, lá estavam vocês de novo, a incendiar a saída do recinto.

8. Como é que tem sido a experiência de ‘tocar à porta’ de festivais? Sentem que o underground ainda tem de provar demasiado para ser ouvido, mesmo quando está a gritar mesmo ali ao lado?

Tanto o underground como o mainstream em Portugal são como todas as tribos. Ou seja, quando não estás propriamente dentro e não tens os contactos certos não vais conseguir entrar ou ser convidado para tocar mas tudo bem fazemos a festa cá fora para quem nos quiser ouvir e curtir conosco. PS estamos abertos a fazer novas amizades e convites para tocar hahahaha

9. E se tocar na rua dá-vos calo, alma ou  até algumas dores nas costas,  o que é que se perde e o que é que se ganha quando se passa para um palco “a sério” ?

A tocar na rua tens sempre um contacto diferente com as pessoas. É mais espontâneo, nem sempre estão à espera de te ver e ouvir, tanto para o bom como o mau. Acabas sempre por ganhar amizades verdadeiras.

No palco podemos sempre puxar a nossa rockalhada e fazer mais barulho. Dá outro gosto tocar com amplificadores a sério e bateria micadas.

Por fim, fazer parte de uma banda DIY é também sobre o esforço diário: carregar colunas, pagar gasolina, manter o coração inteiro.

10. Qual foi o maior desafio que enfrentaram? E o que vos mantém a querer continuar, mesmo quando o corpo já pede descanso?

O maior desafio é o desafio diário de procurar todos os dias sítios para dormir, tomar banho, fazer guita e reciclar seja nos supermercados ou festivais. Algo que se vai tornando um pouco a nossa rotina de vida. 

O que nos mantém vivos é o gosto pela música, viagem e aventura. Enfim, viver.

11. Se a vossa carrinha falasse… o que é que ela diria sobre vocês?Se não falasse, qual seria a buzina ideal para a banda?

Se falasse dizia: “Não vi nada, não ouvi nada, não sei de nada”

 

Buzinava : berurier noir – vivre libre ou mourir



Para fechar, deixem uma mensagem para quem está agora a começar com poucos recursos e muitas dúvidas. * podem gritar, aconselhar, ou mandar vir com o sistema. Seja o palco  ou a rua, o espaço que ocupam é vosso.

 

Sejam amigos e mantenham-se unidos. Mandem vocês próprios mensagens para ir tocar aos spots e se não aceitarem vão tocar para rua ou façam as vossas próprias festas e juntem a malta. Vontade e coragem que é uma linda vida para sofrer!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

 

Numa altura em que tantos se moldam para caber em palcos e vitrines, os Caravananana seguem à margem, a provar que a música não precisa de convites oficiais para fazer eco. Estamos em plena temporada de festivais, mas é cá fora, entre a poeira, os portões e as ruas por onde passam, que o espírito mais cru da música se mantém vivo e eles sabem disso melhor do que ninguém.

 

Fica aqui o manifesto para que eles continuem a acompanhar-nos, sem querer mais um verão inteiro sem a sua energia contagiante. Que venha muito mais barulho, dentro e fora dos festivais! Uma coisa é certa: eles andam por aí, e nós vamos apanhar sempre que pudermos, e vocês também.