Por Francisco Moura

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24 – Abril – 2026

Doom Thrower "Matiné solarenga ao som de música tenebrosa"

Já estamos em julho e nada melhor para refrescar do imenso calor do que rumar a Almada para ver quatro das bandas mais promissoras da cena nacional. O Cine Incrível, espaço que tem sido deveras importante para a música alternativa em Portugal, recebeu a primeira edição do Doom Thrower, um festival criado para dar destaque ao melhor doom nacional. E claro, qualquer referência a Bolt Thrower já vale logo pontos extra.
 
As hostilidades começaram com os Agitat Solum, banda lisboeta que tem passado pelos spots mais refundidos e acarinhados do país, mas que desta vez subiu ao palco do Cine Incrível, com direito a projeções no fundo do palco. Com Marinheirus na guitarra e voz, criticando as guerras e outras injustiças mundanas, Nuno a soar quase tão bem como o Al Cicernos e Goblin a desancar o caos, não foi logo a casa abaixo, porque ainda havia mais três bandas. São daquelas bandas que têm tudo para crescer como deve ser, praticando um sludge espesso, cheio de lodo. Importa salientar que ainda nem lançaram o EP de estreia e já debitam uma jarda do caraças, suficiente para levar a malta aos primeiros moshes da tarde.
Seguiram-se os Throwness, banda composta por Kevin Guimet, Tiago Rodrigues, Micas e João Fernandes, que veio apresentar Marrow Part II: A Fire Through the Ether, um EP bombástico para os amantes de Post-Metal. A filosofia de Martin Heidegger, em torno da ideia de sermos ‘atirados’ para este mundo sem escolha, não serve apenas de inspiração às letras. Sente-se na forma como a banda constrói o concerto, alternando entre momentos de contemplação e explosões emocionais. Para quem aprecia uma viagem mais introspetiva e existencial, esta é uma banda para ser vivida. Há momentos que quase pedem para fechar os olhos e deixar a música tomar conta de tudo, até chegar a inevitável catarse. É aí que faz sentido voltar a olhar para o palco e ver o quarteto em perfeita sintonia, com a Micas sempre de um lado ao outro do palco, tocando no baixo como uma desalmada e com o Tiago e Kevin a descarregarem riffs como se um maremoto estivesse a chegar. É impossível não ficar arrepiado perante tamanha descarga emocional. Quando chega o fim do concerto, fica a sensação de que talvez aquilo que temos seja, afinal, mais do que suficiente para a nossa realização pessoal, enquanto ao mesmo tempo, ficamos mais leves.

Depois de refletir sobre o peso da existência, chegou a altura de descarregar tudo com os Vaneno. São daquelas bandas que pedem um mosh praticamente desde o primeiro riff. E, claro, houve. Apenas uma semana depois de um concerto sangrento em Ovar com os Bas Rotten, Alex voltou a mostrar que nasceu para o caos. Num palco bem mais alto, dava perfeitamente para imaginar um voo em direção ao público caso tivesse espaço para isso. Com o ainda fresco Chaos, Hostility, Murder, o próprio título do disco resume bem aquilo que é um concerto dos Vaneno. Não há tempos mortos, baladas ou lamechices. Há riffs para partir pescoços, cabeças a abanar e malta a empurrar-se para dentro do circle pit. Com Filipe Peraboa e António a sacarem riffs bastante deliciosos e ritmados e Miguel Nunes a acelerar o processo, parece que estamos a ouvir o cavalgar dos quatro cavaleiros do Apocalipse. Merecem todo o carinho que têm recebido, apesar do sludge rafeiro e sem filtros que praticam.

Os Lord of Confusion, quarteto oriundo de Leiria, fecharam esta bela tarde em Almada da melhor forma. Com um doom carregado de ocultismo e sintetizadores que parecem saídos dos anos 70, oferecem a banda sonora perfeita para quem gosta de imaginar que está a ver O Exorcista. Carlota Sousa liderou autênticas invocações ocultas, enquanto João Fonseca, no baixo, berrava com tudo o que tinha. Foi um ritual em toda a linha. Com The Weight of Life, editado em março, ainda bem quente e muito presente no alinhamento, quem não sentiu o diabo neste concerto é porque alguma coisa lhe passou ao lado. As guitarras de Danilo soavam de forma a deixar Tony Iommi orgulhoso. Foi tenebroso, no melhor sentido da palavra. Uma verdadeira delícia para quem aprecia doom tradicional com fortes doses de psicadelismo. Uma excelente trip satânica.

Esta tarde foi o reflexo do talento que temos atualmente na cena nacional. São bandas que merecem ser ouvidas, mas sobretudo experienciadas ao vivo. Para além de demonstrarem enorme qualidade, representam uma nova geração capaz de continuar a fazer evoluir a música pesada em Portugal. É pena que uma iniciativa com quatro bandas desta qualidade não tenha atraído mais gente. Se queremos uma cena nacional mais forte, festivais como este precisam de ser apoiados desde a primeira edição. Que para o ano o Doom Thrower regresse ainda mais intenso.