Bajonca Rock Fest: Uma Mina sonora no Coração da Serra

Por Mia Nieves

Imagem por Diogo Azevedo

21 – Julho – 2025

Nos dias 11 e 12 de julho, Valadares (São Pedro do Sul) voltou a fazer tremer o chão com a mais recente edição do Bajonca Rock Fest, um festival gratuito que junta riffs pesados, caldo verde e uma comunidade inteira a remar na mesma distorção.

Bem, há quem diga que o mundo nasceu num Big Bang, outros acreditam em deuses antigos ou forças cósmicas. Mas em Valadares, há uma versão bem mais divertida e mais embriagada. Conta-se por lá, com um copo cheio na mão e um sorriso já meio torto, que o mundo terá nascido numa mina. Sim, numa mina chamada Bajonca.

Segundo a lenda local, essa mina foi descoberta antes mesmo do mundo existir. Ao escavar a terra e tirar água do seu interior, o homem criou os continentes e os oceanos. Um delírio geológico-vínico? Talvez. Mas quem somos nós para questionar? Afinal, a energia que se sentiu, faz mesmo parecer que ali se criou qualquer coisa de muito maior que um “simples” festival.

Tudo começou em 2021, quando, durante as festas populares de Valadares, surgiu o primeiro festival de rock da aldeia, uma única edição, que deixou marca. Tanta marca que a malta envolvida decidiu fundar a Bajonca – Associação Cultural e Recreativa e continuar o legado. O nome é outro, mas o espírito é o mesmo: alto, suado, e descentralizado.

Nasceu assim este festival que rejeita os moldes urbanos e coloca o foco no que importa, que é a música, as pessoas e o lugar que o envolve.

Confesso que não sou grande conhecedora de metal, por uma questão de gosto pessoal,apenas.  Por isso, fui sem grandes expectativas em relação ao cartaz, ainda que houvesse uma ou outra banda que já sigo há algum tempo, como é o caso de Spin the SkullMau Jesus, Wanderer, Amaterazu e claro, Madmess, que deram  um concerto de cortar a respiração mesmo sem a bateria mega processada, com os tipicos double kicks a que o público estava habituado.

Estamos a viver um momento em que a palavra “autêntico” já perdeu quase todo o seu significado, e é através de iniciativas como esta que sentimos o porquê de ainda estarmos aqui. Foi lindo ver o pessoal do stoner a vibrar com os metaleiros e os metaleiros a dançar fora do seu habitat natural, os locais de todas as idades rendidos à distorção… e até tivemos direito a crowdsurf dos velhotes da aldeia. Sim, velhotes em crowdsurf. O que é que querem mais? 

A verdade é que um dos maiores bloqueios que enfrentamos está nas caixinhas que criamos dentro de nós mesmos, desde os géneros, estilos, gostos fixos. E muitas vezes nem nos damos a oportunidade de sair delas. Mas o Bajonca é um sitio que te faz, suavemente, deixá-las à porta. O truque é ir sem esperar muito, mas ir de mente totalmente aberta.- simplesmente, ir! 

Estar ali é entrar num lugar onde as regras são outras. O ambiente é descontraído, o público é tão diverso quanto livre, e sente-se sempre aquela sensação de que estás entre amigos. Há crianças a correr, cães a dormir à sombra dos amplificadores, cerveja fresca, café e caldo verde que te abraça. E no meio disso tudo, uma sensação constante de descoberta.

Para João Coelho, um dos responsáveis por este fest, este foi o ano em que o festival consolidou a sua personalidade própria. Com um cartaz eclético, nomes pouco rodados na zona e uma energia de comunhão no ar, o Bajonca mostrou que há muito mais para viver fora do “roteiro óbvio” da música alternativa.

“Queremos continuar a evoluir o festival, corrigir os pontos negativos, trazer boa música, mas principalmente, continuar a ser humildes e ter os pés bem assentes na terra. O Bajonca não é nosso, é de todos.” – diz-nos João Coelho, Presidente da Associação.

Voltando às bandas, para além dos nomes do circuito nacional, tivemos a presença de bandas internacionais que provavelmente fizeram com que muitos dos que lá estavam tivessem ido com o grande propósito de os ver, refiro-me a Keres e a Nel Buio. Se por um lado  Keres renderam toda a gente a vestirem a camisola, Nel Buio provavelmente foram para lá com mais expectativas do que deviam. E infelizmente, há bandas que ainda carecem de uma certa consciência de contexto. Não que tenham agido com má intenção, longe disso. Mas a verdade é que o público sente. E quando essa ligação falha, a atmosfera muda, e muda mesmo.

Fez-me refletir (mais uma vez) sobre uma coisa simples, mas essencial: não importa se estás num dos maiores festivais do mundo ou num palco no topo da montanha rodeado de verde e simplicidade, quem está ali a dar do seu tempo para te ver merece respeito.

É por isso que o Bajonca Rock Fest não é um lembrete de que há vida cultural fora das cidades, e que é urgente olhar para esses lugares com o valor que merecem. Valadares, terra de águas termais e paisagens de cortar a respiração, tem uma comunidade afável, curiosa e generosa. E isso sente-se na forma como te recebem, na comida, no som, e no calor humano.

Enquanto nós, citadinos privilegiados, que estamos habituados ao luxo de ter concertos a cada semana, quase sem levantar uma palha, esquecemo-nos que noutros cantos do país, quem quer música tem que juntar forças, levantar estruturas, montar palcos, e transformar uma vontade em realidade. E é exatamente isso que se faz nesta terra, “onde o mundo nasceu” : organizar um festival não só por paixão, mas por uma crença profunda no potencial da aldeia. E isso, meus amigos, é rock’n’roll da forma mais pura.

Valadares nunca mais será  a mesma. E ainda bem, porque no próximo ano, ninguém deveria faltar.