Ano Malfeito 2026

Por Miguel Flores

Imagem por André Cruz

22 – Abril- 2026

Quem acredita em deus vai à missa, quem acredita em jarda vai a Fafe. Páscoa ou Ano Malfeito? Eu cá escolhi Fafe. Começa a ser tradição passar o santo almoço de família ressacado e com aquele sentimentozinho bom de quem ouviu foi às termas sonoras.

Desta vez a vida pregou-me partidas e não consegui zarpar para Fafe às horas que queria, portanto quando vi que não ia conseguir apanhar a abertura do festival peguei no telefone e pedi à minha grande e fiel amiga Sofia Dantas para documentar o que experienciou nas 2 horas que perdi. Estas foram as suas palavras:

“O arranque do Ano Malfeito faz-se com uma calma característica que antecede a tempestade à qual a associação cultural nos tem vindo a habituar nos últimos nove anos. Os finos borbulhantes animam as conversas dos peregrinos que moldam esta festa de aniversário pascoal com cada vez mais visibilidade num circuito que tenta tornar-se mais diverso e descentralizado. 

A entrada é então feita a pés juntos. O trio OkA sobe a palco acompanhado da melodia familiar de uma carrinha amarela Family Frost adivinhando já a desconstrução frenética que se avizinha mas que nunca perde o seu sentido rítmico aliciante.

A frente sonora que nos chega através da apresentação do EP de estreia “ombu” faz bem mais do que nos esbofetear com a sua crueza. Numa viagem ao mesmo tempo matemática e sinuosa, João Moreira, Alexandre Bandola e João Mendes brincam com sonoridades já características porém, mostrando-nos o outro lado da moeda através da distorção noise rock. É como uma eterna batalha de beyblades que se faz na pista convidando-nos não só a embater no corpo ao lado do nosso mas nas nossas próprias suposições musicais

O pós concerto é conduzido pelo ansiado regresso de Chicas Mal Hechas à cabine. Convidando o público a sugerir os seus discos pedidos revelam desde logo um gosto eclético e adaptativo capaz de conduzir o passo de dança a qualquer destino sonoro. É assim que incendeiam a pista, agradando a Gregos e Romanos, numa comunhão dançante que nos aquece a alma.”

Cheguei em cima da festa, reguei-me com água de Fafe (informo que é o melhor bagaço do Minho) e ao fim retirei-me para a icónica residencial São Jorge.

Segundo dia, o sol brilha e o primeiro concerto é na linda estação memória, um  “museu interpretativo que funciona como uma cápsula do tempo”. Neste espaço etéreo aconteceu a segunda edição do Bulir, uma criação em residência artística que juntou Sofia Ribeiro (System Sophie), Vitor Silva (El Señor, Coletivo Pointlist) e Helena Margarida cujo resultado se enquadrou perfeitamente com a essência do local, levando o público a um estado contemplativo e de quase transe coletivo. Uma experiência única e que fica na memória de quem lá esteve.

Pausa para jantar uma bela Vitela à moda de Fafe, regada a verde tinto e mais àgua de Fafe e seguimos para o mítico café Avenida. Primeiro concerto dos Faca/Cega, energia, riffs orelhudos, pesadões, e muita jarda. Interações quirky entre os membros da banda, micose awareness e muito caos.

Vaiapraia, concertaço. Da forma mais assertiva, graciosa e artística possível garantem o respeito pela casa, inflamam o público e  apresentam as malhas do “Alegria Terminal” com uma eletricidade que conectou o público como pouca gente sabe fazer. Fizeram jus à bio que têm: selvagem, estridente, catchy e queer.

O terceiro gig da noite foi Sereias, aqui sou suspeito, porque quem me conhece sabe que esta é a minha banda preferida.

Amo Sereias, e tendo as expectativas altas eles entregaram tudo! Secção rítmica super tight mas a servir de carruagem para transportar o caos todo que se segue, o António Pedro (vocalista) a envergar a sua fragilidade como armadura, cada concerto um manifesto anti-fachista, uma declaração de amor à liberdade, um grito de desespero contra o mundo asfixiante que vemos lá fora.

O caos frenético da guitarra distorcida, as vozes fantasmagóricas, os sopros a gritar, parece o mundo a arder com Satã a aplaudir. 

Para fechar a noite vem uma rainha do hip hop underground de Braga.

De rosto escondido, a Tricla larga rimas afiadas com beats desenfreados a cortar pela audiência adentro enquanto encerra a festa com sotaque nortenho.

Aqui ninguém fica sem resposta nem nenhuma dica fica por declamar.

O povo aprecia embasbacado enquanto a mana marca o passo na pista de dança. Boa festa, boa sexta e um segundo dia de Hollywood à moda de Fafe.

Último dia de festa de aniversário começa na sala Manoel de Oliveira do Teatro Cinema de Fafe com os Má Estrela. Que viagem! O público sentado numa sala de cinema, luzes apagadas, ali no escuro a ouvir uma atmosfera desconcertante mas ao mesmo tempo introspectiva foi um momento que não estava à espera de ter.

Os beats eletrónicos acompanhados de uma bassline extremamente consistente complementam-se com o sax a elevar a mente para caminhos espirituais bem aconchegadinhos.

De volta ao Avenida para o primeiro concerto da noite com as Lesma.

Bem-vindos ao império das Lesma, estas três filosofas do século XXI alertam a audiência para os perigos do telemóvel, convidam-nos a todos a pousar este demoníaco utensílio e a fumar um cigarro enquanto ouvimos psicadelismo DIY.

Rock sempre a abrir da margem sul e de Sintra vêm mostrar que a vida é demasiado curta para ser desperdiçada no doomscroll. Acabam o gig a gritar a “Barreiro” e saímos de lá de coração cheio.

Segundo gig podia ser o ritual de iniciação a um culto de “A vida não é uma merda”.

Unsafe Space Garden, “Sejam bem vindos a este preciso momento, caguem nos outros porque este é que está a acontecer!” foi a frase com que a Alexandra (vocalista e teclista da banda) começou o gig e não podia ser mais acertada.

Foi um concerto de celebração da vida, de apresentação de músicas do novo álbum “O Melhor e o Pior da Música Biológica” e de verdadeira festa. Energia, boa disposição e uma mensagem de verdadeira motivação. “Mesmo que não acredites, canta na mesma! A vida não é uma merda!”.

Eles conduzem o público, a festa, a energia, com entrega, dança, performance teatral e muita alegria.

Passagens insanas entre músicas novas e antigas, novas brincadeiras, novos outfits, novas interações, auto-ajuda, e muito amor para dar.

É impossível sair daquele concerto sem um sorriso parvo na cara. 

O último concerto da noite tocam os The Family Men.

Vindos diretamente da Suécia o som deles é uma parede de noise, com beats eletrónicos que parecem máquinas de fábrica a colapsar. As guitarras rangem e gritam. É punk niilista com eletrónica industrial que nos atinge no peito.

A performance foi suada e confrontacional, não estamos apenas a ver a banda, estamos dentro do caos com eles. No final, a sensação é de purga.

Foi aquele tipo de concerto onde sais com os ouvidos a apitar, a t-shirt encharcada e a mente completamente limpa.

Para fechar a noite, o nosso já icónico DJ A Boy Named Sue.

É uma daquelas aulas de história que não seca ninguém.

É rock ‘n’ roll no estado mais primitivo — cru, suado e feito para dançar — onde o que conta é a alma da canção e aquela energia bruta que só o vinil consegue disparar. 

Assim se fecha a última noite de mais um ano malfeito. Pronto para enfrentar o almoço de família, sem grandes crenças religiosas mas de coração cheio e uma enorme ressaca.

Pro ano há mais!