SEIS ANOS DE FERRO
Por Mia Nieves
Imagem por Diogo Azevedo
29 – Julho- 2025
No coração do Porto, no topo da íngreme rua da madeira dotada das suas noites sem fim, há um sítio onde o barulho é sempre bem-vindo e os corpos dançam sem guião. O Ferro Bar, este ano celebrou seis anos de vida com seis dias de festa,de Terça a Domingo, num verdadeiro manifesto de tudo aquilo que tem sido, e quer continuar a ser.
Durante uma semana inteira, o Ferro mostrou ao que veio: concertos ao vivo, DJ sets, encontros, reencontros, suor e volume alto, reunindo nomes que têm feito parte da sua história, uns mais antigos, outros mais recentes, todos essenciais. A programação foi pensada como uma carta de amor à sua comunidade: eclética, arrojada, com cheirinho a subsolo, desta vez sem palco improvisado.
Esta casa, tem sido um porto de abrigo para bandas emergentes, um espaço seguro e o verdadeiro palco para aqueles que não se reveem nos circuitos mainstream, tem cultivado uma cena onde o DIY, a proximidade e a resistência cultural têm sempre lugar. – É também a casa que alinha em quase todas as maluqueiras que nos passam pela cabeça(sub/soloers) entre as 23h e as 05h da manhã, seja de uma terça ou de um sábado à noite.



Bem, a festa abriu em grande com Krypto, para quem nos tem acompanhado, já teve oportunidade de ler o quão intenso e inesperadas podem ser as suas atuações,o melhor disto tudo, é que nunca são iguais! O que difere da última vez que falamos sobre eles ? Podia ter sido a água que se transformou em cerveja e banhou Rui Martelo de cima abaixo, mas vá, ainda não é desta que este milagre se dá realmente… mas que foi um Peligro Exclusivo, lá isso foi! Apresentaram um novo tema, o que quer dizer, que apesar de já serem um marco na cidade, não vão parar tão cedo e nós agradecemos! – Começou bem, com prendinhas e tudo!











Seis dias de festa não é tarefa fácil de cumprir, mas felizmente a programação estava afinada e, sem querer, até bem equilibrada: um pouco de psicadelismo e um pouco de salada. Se bem que, sejamos honestos, gostamos mesmo é de uma boa francesinha e lá tivemos que ir encher bem o bucho para aguentar uma segunda dose á la Sub/Solo. SANTA FUCKING MUERTE e Deusa Ordalisca do Rock, TECHORPSEN. É preciso ter estofo para isto, mas nós aguentamos quantas vezes forem precisas! Não querendo puxar muito a asa aqui a nossa sardinha, se o primeiro foi inesquecível (*cofcof*), o segundo foi estrondoso ? Só quem viveu sabe, porque de facto,memorável será sempre.

A forma que arranjei para definir esta simbiose da guitarra de José Vale com as máquinas de Martelo Som Sistema 666, é mais ou menos assim: rave punk satânica até ao osso! Do mais denso ao mais agudo, do improviso ao mais sentido. – Para mim, é o que é, sem tirar nem pôr, também é preciso perceber o que está ali acontecer. Mesmo que o intuito seja não se entender coisa nenhuma, afinal, não estão mais na escola de Jazz e o Punk vive bem sem regras, o que importa é que seja sentido. Por falar em sentir, é impossível não deixarmos o corpinho fluir com a seleção musical que Techorpsen preparou para esta noite, foi do mais oriental ao mais trovoso e sensual, atravessando ritmos que nos puxam pela espinha e nos deixam a levitar entre o místico e o profano, sala cheia de início ao fim.











Seguimos, desta vez com pouquinhas horas de sono, mas sem deixar a bateria descarregar, não seria esta, a noite dos miúdos da ritalina! É o regresso dos HETTA, ao Porto.
A entrega é a mesma, desde o primeiro dia, e há mesmo muito poucas bandas que conseguem cativar vezes e vezes sem conta, da forma como eles o fazem. – Talvez a única comparação que consigo fazer, com aquilo que tem atuado por cá mais recentemente, seja MONCHMONCH. Embora registos um pouco diferentes, foi a única banda que vi encher o Ferro, neste último ano, com a mesma entrega que HETTA dá sempre.
Ver Hetta ao vivo é como ser apanhado por uma tempestade elétrica: breve, brutal e impossível de ignorar. A banda traz um caos coreografado, onde cada explosão sonora é calculada, mas sentida nas entranhas. E como prendinhas nunca são demais, também nos presentearam com uma faixa nova, que no fundo são duas, ainda sem nome, cheias de fúria e muita precisão, que vão para além de uma intensidade que prende o olhar, mesmo quando o corpo já está a ser empurrado pelo mosh. – Queremos no disco!
No fundo, este quarteto do Montijo e nova adição no cardápio da Lovers & Lollypops, representam tudo o que o post-hardcore deve ser: intenso, desconfortável, libertador.


De seguida, temos Arrogance Arrogance, com uma seleção discográfica de post-punk que pernoitou por uma seleção de techno intenso, com pista cheia, não seria ele um dos membros da nossa tão icônica e invicta Ácida. – Foi interessante ver a mistura de público alternativo que ali se fundiu como um só. No fundo, coligamos quase todos entre os mesmos bpms.


Apesar de termos selecionado três dos seis dias, estes dias de festa foram um resumo condensado do que se vive ali quase todas as semanas: mistura de estilos, mistura de pessoas, mistura de emoções. Houve quem viesse para ouvir post-hardcore, quem ficasse para o techno, quem subisse ao palco para rasgar a guitarra e quem descesse para se entregar à pista. E, no meio de tudo isso, o Ferro manteve-se igual a si próprio: quente, intenso e indispensável. Quem passa por esta casa sabe que ali o tempo corre de forma diferente: a festa começa tarde, mas começa sempre, e a liberdade de expressão e de corpo é a única regra inquebrável.
Nestes seis anos de Ferro, fica a certeza de que, mesmo num centro urbano cada vez mais dominado pela gentrificação e pelo entretenimento domesticado, ainda existem espaços onde o caos criativo, a experimentação sonora e o espírito underground resistem.
Se o Porto tem alma, há de ter passado ou irá passar por aqui.
Parabéns, Ferro e obrigado por seres parceiro de todas as horas. Que venham mais seis, com barulho, com corpos a dançar, e com o coração sempre em curto-circuito.




