"Válvulas a ferver: El Saguaro // Oak Farm"

Por Vasco Vasconcelos

Imagem por Diogo Azevedo

13 – Abril – 2026

Há bandas que tentam emular o som de Palm Springs ou do deserto de Mojave, mas os El Saguaro parecem ter nascido diretamente da areia e da poeira. Não se trata apenas de música; é uma questão de temperatura. Onde outros procuram a perfeição digital, este coletivo prefere a distorção orgânica e o calor das válvulas a ferver.

No final do mês de março, mais especificamente no dia 27, teve lugar o segundo concerto de uma mini tour ibérica dos El Saguaro, acompanhados pelos Oakfarm, da Alemanha — banda com quem já tinham partilhado o palco durante a última tour europeia.

A atmosfera estava carregada de uma eletricidade estática antes mesmo do primeiro acorde, como se o ar do recinto tivesse sido substituído por oxigénio vindo diretamente de um deserto árido. Quando os El Saguaro subiram ao palco, não houve espaço para cortesias ou introduções longas; o que se seguiu foi uma demonstração de força bruta e psicadelismo hipnótico.

Ver um concerto de El Saguaro é como entrar numa máquina do tempo que te transporta para um festival psicadélico setentista, mas com a urgência e o volume de 2026.

Este concerto foi uma experiência física. O som não chegava apenas aos ouvidos — o volume das colunas e o baixo de André Horta faziam o chão e o peito da audiência vibrar de forma contínua.

Em palco, o trio funcionava como uma máquina rítmica. André movia-se sem parar, ditando a energia do público comprimido à frente do palco. Não havia distrações visuais nem cenários complexos: tudo se centrava no suor, na execução crua dos instrumentos e nas batidas groovadas de João e Lucas, ao comando da guitarra e da voz. O resultado era um bloco sonoro constante que forçava a plateia a mover-se em uníssono do início ao fim.

Ao vivo, o som da banda revela-se muito mais selvagem do que as gravações de estúdio deixam antever. Os riffs de guitarra, mergulhados num fuzz denso e quente, pareciam ganhar massa física, vibrando no peito de quem se atrevia a ficar na primeira fila.

Com esta banda não há distrações: apenas a crueza do rock, o suor, os amplificadores a ferver e a entrega total dos músicos — uma precisão de relógio suíço com a sujidade de uma garagem de Detroit.

O EP de estreia, Enthusiecstasy (2025), com temas como “Ticket to Fly”, “Viaje”, “Nazaré” e “Slow and Easy”, revela uma banda que não tem medo do volume, mas que sabe usá-lo como ferramenta dinâmica.

Longe de se prenderem às versões de estúdio, os El Saguaro expandem ao vivo temas como “Viaje” e “Nazaré” em explorações instrumentais prolongadas. Criam momentos livres que não existem nas gravações, quebrando as próprias regras e despertando a curiosidade dos ouvintes mais atentos.

Os El Saguaro são, atualmente, uma das propostas mais honestas e potentes do panorama independente nacional. Conseguem soar a clássico sem nunca cair no exercício de nostalgia. Se procuras um concerto que te faça sentir o chão tremer e a alma levitar, esta é uma banda a seguir.

Seguiram-se os Oakfarm — e a vibração manteve-se.

Ao ouvi-los, é impossível não sentir um transporte imediato para uma garagem em 1973, mas com a densidade sonora de quem sobreviveu ao grunge dos anos 90. Na plateia, o primeiro impacto não é o volume, mas a textura.

A guitarra de Tobias Lemberger é quente, saturada e preenche cada canto da sala, enquanto a secção rítmica de Arne e Dennis — com uma química quase telepática herdada dos tempos de Bone Man — constrói uma base sólida que se sente no peito.

O espetáculo vive da tensão entre silêncio e explosão. Num momento, és embalado por uma melancolia bluesy e hipnótica, onde a voz de Tobi soa vulnerável e crua; no seguinte, a banda rebenta num riff de stoner rock que te arrasta para o headbanging sem dó nem piedade.

Não há poses ensaiadas. A estética é despojada, focada na entrega física aos instrumentos. É uma experiência sensorial e honesta, onde o improviso ganha espaço e as músicas se estendem organicamente, deixando no espectador a sensação rara de ter testemunhado algo genuíno — capturado no momento, através do suor e da eletricidade.