O Peso Sentimental da Nova Melancolia

Noise pop, Shoegaze e o Sentimento: O Duplo-Ataque Emocional de VEENHO

Por Mia Nieves

Imagem por Eduardo Gonçalves

20 – Novembro- 2025

Um ano e meio após Lofizera, o elogiado LP de estreia, VEENHO regressa com placebo + sentimental, um duplo-single que aprofunda o universo sonoro dos ‘heróis lo-fi’, intensificando uma identidade assente numa sensibilidade emocional rara, num registo simultaneamente íntimo e incisivo. Com selo da Xita Records, o lançamento reafirma o quarteto como uma das propostas mais singulares e autênticas do panorama independente português. A banda, composta por Martim Brito, António Eça, Xixo e Alex Fernandes, cria colagens de baixa fidelidade marcadas pela tensão entre caos e melodia, barulho e harmonia, explorando novas abordagens ao indie rock enquanto honra o legado alternativo dos anos 90.

Para este novo trabalho, Martim reuniu uma verdadeira ‘dream team’ de amigues e referências: placebo conta com João Dória (Cafetra Records) na guitarra solo e segundas vozes, enquanto sentimental integra o contributo de Alex Fernandes (Sun Blossoms), agora membro oficial da banda. António Queiroz (Kerox, kaptcha) volta a colaborar para unir os dois temas, enquanto a gravação aconteceu numa pequena casa no Oeste, com Gonçalo Formiga (Cave Story). A mistura e masterização ficaram a cargo de Lê Almeida e João Casaes, pilares da cena alternativa brasileira e força motriz da Transfusão Noise Records, com quem VEENHO já partilhou palco e referências estéticas essenciais.

Num tempo em que a sombra se infiltra pelas arestas do quotidiano, este novo lançamento surge como um retrato cru daquilo que sentimos mas raramente conseguimos expressar.Estes temas representam uma expansão da identidade sonora da banda, consolidando uma linguagem própria onde o barulho não precisa de ser agressivo para pesar, e cada parede sonora carrega memórias que tentamos varrer para debaixo do peito. Há aqui cuidado coletivo minucioso, atenção aos detalhes que torna cada faixa uma experiência imersiva e emocionalmente densa.

“Tentar esquecer para não sentir falta” – a frase que abre placebo – funciona quase como manifesto desta nova fase. Fala de anestesia emocional, de uma defesa silenciosa contra a saudade que ameaça engolir-nos. Mas o esquecimento não é cura: é uma ilusão delicada, uma forma de continuar a caminhar mesmo quando o chão parece instável.

Em sentimental, a fragilidade ganha contornos ainda mais humanos: “sempre a morrer na praia alta, adaptei-me a sentir falta. só existir no desespero, afinal nem foi sincero.” É o desabafo de quem vive sempre à beira do possível, habituado à ausência como quem se adapta ao frio. Descobre-se que o que parecia verdadeiro afinal era só encenação. E quando não há lugar para pousar, desaprender a confiar torna-se inevitável.

É nesse contexto que o noise pop e shoegaze cumprem um papel central. A sua natureza nebulosa e emocional constroi pontes entre agressão e beleza, caos e vulnerabilidade. 

Nos universos mais densos do post-hardcore ao doom, do blackgaze ao sludge, o shoegaze e o noise pop ganham ainda mais relevância. Não suavizam a agressão, mas acrescentam profundidade. Onde os metal/punkers impõe força pelo impacto, os shoegazers impõem pelo volume emocional, pelo turbilhão interno que se estende em camadas de reverb, feedback e melodias desconstruídas. O peso que VEENHO nos apresenta, é um tipo de peso menos físico, mais espiritual; menos murro, mais vertigem. A distorção funciona como abrigo; o ruído, como cura. É um peso que não grita, mas vibra por dentro, lembrando que intensidade também pode ser melancolia. 

Este EP mostra, ainda, que VEENHO está numa fase de consolidação e experimentação: a maturidade musical reflete-se em arranjos e texturas, na forma como cada faixa constroi espaço emocional e sonoro, elevando o seu discurso musical para além do que tinham feito até aqui.

No meio do nevoeiro emocional que carregamos, estas faixas sussurram algo simples e urgente:ainda estás aqui – e isso importa.

Há muitos tipos de peso. Alguns esmagam. Outros elevam.
E os melhores fazem as duas coisas ao mesmo tempo.