Inferno das Febras fest: Do caos à afirmação

Por Mia Nieves

Imagem por Diogo Azevedo

23 – Setembro – 2025

É oficial, o verão chegou ao fim, não tenhamos nós ardido no Inferno. Está na altura de colocar os últimos meses em perspectiva e repensar no futuro, bem assentes no presente. O festival, de Lousada, acontece no último fim de semana de agosto e assinala o final da época balnear, que para nós, é mais entre a terra e o asfalto e o mergulho dá-se entre corpos suados. 

A trajetória do Inferno das Febras é um exemplo vivo de como um festival pode crescer sem perder a sua alma. Nos primeiros anos, como Caos In Mesio, o festival funcionava como um ponto de encontro da cena periférica, sem regras rígidas e longe de formalismos.

Com o tempo, o evento encontrou uma nova forma de existir, passando então a dar-se por  Inferno das Febras, como o conhecemos. Mantendo o espírito original, passou a ter maior estrutura e organização, garantindo forte presença da comunidade local. Quem colabora, faz por amor à música e apoio incondicional à cena, tornando o festival um projeto coletivo e nunca um negócio. – De borla e com melhores condições que muitos festivais a pagar por este país fora. Apesar de estar a apenas 20 minutos do Porto, o evento mantém a sua descentralização, levando cultura e programação musical de qualidade para próximo de aldeias e pequenas localidades, aproximando assim o público da música e da arte de forma genuína e acessível, unindo pessoas de todos os pontos do país.

Agora, com a primeira edição paga e a inclusão de mais bandas internacionais, o festival dá mais um passo: consolidar-se como um evento (ainda mais) relevante a nível nacional e agora internacional, sem perder a essência colaborativa e comunitária que sempre o definiu. A evolução do Inferno das Febras mostra que crescimento e profissionalização podem caminhar lado a lado com autenticidade e paixão.

O alinhamento deste ano, tem uma particularidade que ultrapassa o facto de terem mais bandas internacionais presentes, que é atenção ao que se está a passar unificando gostos pessoais, que fogem ao mainstream e uma criação e expansão consciente, que eleva o festival a outro nível sem perder a essência que sempre o guiou. Por isso mesmo, ter uma banda da terra vizinha a abrir o festival tem um peso simbólico enorme. É um gesto de respeito e reconhecimento, que reafirma a ligação do Inferno às suas raízes. Dar esse espaço a quem vem de perto não é apenas uma escolha artística, mas também um ato político e comunitário: significa mostrar que o festival cresce, sim, mas nunca se afasta da cena que o viu nascer. Essa abertura cria uma ponte entre o local e o internacional, lembrando que, por mais alto que o Inferno suba, a chama continua a arder primeiro em casa. Conhecidos pelas suas atuações intensas e atmosféricas, Jesus The Snake, não precisa de palavras para comunicar: cada música é uma viagem, guiada por riffs arrastados, grooves hipnóticos e uma energia que cresce lentamente até atingir um clímax. Trouxeram o peso e a sofisticação sonora que dialoga com a essência do festival. 

Se o festival nasceu do improviso e do barulho, da celebração da desordem criativa, então Caos Ritual, representa a raiz crua desse espírito. Apresentaram o seu debut Souls Corrupted, Vile Misdeeds” , lançado em abril deste ano, que não pede licença nem oferece conforto: desafia, provoca e deixa o público em estado de alerta. Ao vivo, cada membro parece canalizar raiva, frustração e energia pura, transformando-o em música que se sente nos ossos. Ainda não chovia, mas se chovesse, este seria o escudo ideal para enfrentar a tempestade de frente. 

Claro que a programação contou com nomes já estabelecidos na cena local, como os Idle Hand, que, mesmo sem se afastarem muito do registo que já lhes é característico, continuam a trazer uma densidade muito própria e eficaz em palco. Sendo este o último concerto do ano, a sua atuação no Inferno teve uma chama especial, funcionando como um momento que ajudou a canalizar a energia do ritual caótico e a abrir caminho, de forma coesa, para a pausa da febra.

Já no cardápio internacional, temos WYATT E. ou os guardiões do ambiente sonoro. Ter WYATT E. no cartaz é trazer uma dimensão quase cinematográfica, onde a música se transforma em paisagem e narrativa. O trio belga constroi temas longos, densos e profundamente imersivos, que oscilam entre o doom, o post-metal e uma estética quase espiritual, capazes de transportar o público para desertos áridos, templos esquecidos ou rituais ancestrais, tudo através de camadas de som que se erguem lentamente até se tornarem avassaladoras. Os riffs pesados e arrastados, combinados com uma percussão hipnótica e um baixo que vibra no corpo inteiro, abrem portais para outros mundos onde o tempo parece dilatar. Em contraste,a energia crua do post-punk britânico de Heavy Lungs, traz uma força em constante erupção: suados, frenéticos e impossíveis de domesticar, transformando o palco num campo de batalha emocional.

E para terminar em grande o primeiro dia, nada melhor que o caranguejo vindo diretamente das profundezas. Crab Monsters, são a personificação do espírito punk que alimenta o Inferno desde os seus primeiros dias caóticos. Com uma sonoridade rápida, direta e sem filtros, eles trazem para palco um tsunami de riffs sujos, bateria frenética e uma atitude que não pede desculpas. Nada é polido, nada é pensado para agradar, é cru, urgente e honesto. Te-los no cartaz desta edição é também um ato de resistência cultural. Num festival que começou em modo “anárquico” e gratuito, a presença deles simboliza a continuidade dessa chama original. Eles não ardem, eles incendeiam, não há lugar para a contemplação, é puro caos em erupção. 

Agora que as chamas já estavam todas acesas, vem para mim, aquela que é a parte mais bonita deste festival, o convívio puro em que a partilha do que foi vivido  e sentido, acontece. E se fala com entusiasmo do que ainda estará por vir. O que se vive neste camping, este ano mais amplo e iluminado, tem uma energia única onde a má energia nunca terá lugar. Sendo o último festival da season, é aqui que os reencontros tomam sentido e a amizade se torna cada vez mais forte. – Brindemos a amizade, que juntos seremos sempre mais fortes!

Mimimis a parte, no início do segundo dia, o céu ainda segurava a chuva, e o público reunia-se ansioso, sem imaginar que a intensidade que ia começar seria apenas o prelúdio do que estava por vir. Com “Casaarder”, Verbian, foi um aviso de que as portas do Inferno estavam oficialmente reabertas, e que a intensidade e honestidade que o definem seriam sentidas em cada momento dali em diante, com o dobro da intensidade. Trabalham num território onde o peso não é apenas musical, mas também emocional, com canções que são uma  descarga crua e honesta, um espaço onde tudo aquilo que é reprimido ganha voz. A entrega da banda arrasta o público para dentro do mesmo turbilhão de energia. Não há distância entre o palco e a plateia, apenas uma massa em movimento, unida pelo barulho e pela emoção partilhada. Segue-se um tupatupa, acelerado e enraivecido, com BAD! e Ideal Victim, que veio a contrastar o que se viveu inicialmente, mas necessário para puxar a energia para cima, enquanto que os deuses tentaram contrariar a vontade do Monge. – É importante salientar, que IV foi a única presença feminina em palco, mas já lá vamos. 

Diretamente da Margem Sul, Fear The Lord, mostraram porque são considerados “hardcore na sua forma mais crua”, seja cá dentro ou lá fora. São um soco bem dado que nos atravessa o peito, sem meias palavras nem concessões. FTL é urgência, força bruta e imersão total. É música que exige corpo e mente, que transforma frustração, raiva ou emoção em libertação em uníssono. Onde toda a culpa que carregamos enquanto seres humanos, é exposta a olho nu, pontapeada a sangue frio e aceite, para que se sejamos seres humanos melhores. No palco, não há barreiras entre eles e em cada riff, batida ou grito, dá-se um ritual de conexão, onde todos se tornam parte da mesma energia. É também sobre autenticidade e compromisso, e são a prova viva que Hardcore não é moda, não é aparência, não se mede em técnica; mede-se na honestidade da entrega, na coragem de se expor e na capacidade de fazer o público sentir, reagir e participar. É barulho com propósito, caos com direção, intensidade que une e transforma

Pausa para a febra, e desta vez, com um aditivo um pouco diferente do normal. Tomamos o Palco Mesio por assalto, com um momento, assim meio fora da caixa, com intenção de mexermos o esqueleto da forma mais profana que conhecemos. 

A expressão take over carrega um peso simbólico que depende inteiramente do contexto em que é utilizada. No seu sentido positivo, representa a tomada de controle consciente, um gesto de afirmação e autonomia. É quando alguém ou um grupo decide assumir o comando da própria narrativa, recusando-se a ser apenas espectador.No entanto, no sentido negativo, take over pode significar domínio e opressão. Quando motivado pelo ego,torna-se invasivo. É importante nunca nos esquecermos disto, e que há tempo e espaço para tudo e para todos. E para os que ainda se questionam do que se passou ali, foi exatamente isto que aconteceu:  um ato criativo que desafia as estruturas estabelecidas e constroi novas possibilidades.

Juntamos, Mother Jupiter, EgoDeathCvlt, Mvtilde, Martelo 666 e o , e assim se cria a primeira JAM totalmente improvisada, dando vida à primeira NOISY SQUAD. Aqui, a tomada de espaço é um movimento de resistência, um florescimento que não procura esmagar, mas sim fazer coexistir.- Neste sentido, quisemos entregar aquilo que sabemos fazer melhor, que é o princípio base da partilha. – E sim! Vai voltar acontecer, fiquem atentos.

Voltando ao palco principal, dá-se a energia crua do Oi! britânico, The Chisel, com músicas rápidas, refrões gritados e uma atitude que não deixa ninguém parado, tornam-se verdadeiros manifestos sonoros, trouxeram também uma atitude política firme e consciente,  e o público responde não só com energia física, mas também com uma conexão ideológica, sentindo que cada canção tem propósito.Uma declaração direta contra injustiças, contra apatia e contra tudo o que ameaça a comunidade que nos sustenta.  Mantém o Oi! autêntico, com consciência social: “isto  não é só barulho, é instrumento de crítica e união e acho que estas palavras, resumem bem o que se deu ali. Urgente e Necessário! 

Mas a verdadeira catarse da noite e do festival, para mim, dá-se com Coilguns, uma banda suíça originária da cidade mais alta da Europa, e que caiu a pico em Lousada, como uma descarga eléctrica que nunca mais voltaremos a ser os mesmos. Foi um momento em que a música se tornou física, intensa e incontrolável, como se a altitude e o isolamento da sua cidade natal tivessem concentrado toda a energia em som, entregando-nos um momento absolutamente explosivo e inesquecível. E não estou só a falar do facto do vocalista se ter enfiado num caixote do lixo e se ter mandado em crowdsurf. 

A força de Coilguns está na concentração e precisão dentro do caos. Mesmo nos momentos mais pesados, há um sentido de direção e tensão que nos mantém completamente absorvidos, com uma construção quase cinematográfica, um momento culminante que atinge o corpo antes da mente, lembrando-nos que o “barulho” também pode ser forma e narrativa. Contam, sentem e entregam, entregam tudo e entregam bem!

Cancer, são literalmente aquilo que eu costumo apelidar como “fora da minha órbita” ou totalmente fora do meu gosto pessoal, no entanto, há que admitir que deram um concerto soberbo com toda a precisão solicitada e não solicitada, com uma pitada de breakdowns fodidos. Pardon my french, há que admitir que foi do caralho! MELANCIAS E DEATHMETAL, é tudo que tenho a dizer sobre isto. 

Nagasaki Sunrise encerram o inferno, ou pelo menos, assim pensamos nós, tal é a nossa surpresa quando Wanderer entram em palco com o seu braço de ferro e o seu carisma inigualável. Foi uma sinergia perfeita, e fez com que todos saíssem dali com um gostinho daquilo que ouvíamos nos primórdios dos nossos tempos de ricky rockers. Saímos todos de sorriso da cara, em harmonia, até a chuva abrandou. Coincidências ? Rock & Roll!!

No fundo o festival conseguiu destacar-se com um cartaz eclético, no entanto pouco convencional. A escolha das bandas foi arriscada, mas não falhou e foi a todas as vertentes que tinha de ir. No entanto, é impossível não salientar que sendo o primeiro com mais número de bandas internacionais, já não há a desculpa de que não existem assim tantas opções, para que não exista mais representatividade em palco. Ao mesmo tempo, há que ter consciência que não podemos estar em todas as frentes, e que, organizar, planificar e programar um festival como este, em pleno final de verão requer muito esforço e dedicação e o Inferno será sempre um festival com consciência e valores sociais vocais e ação direta.

Para mim, que sou natural de uma aldeia vizinha e tendo-me convertido à calçada da capital por uns aninhos, acaba por ser bastante interessante perceber que, no fundo, somos todos mais ou menos vizinhos e partilhar “de onde somos, e de onde vimos” com aqueles que fui conhecendo pelo caminho, de norte a sul do país, ainda torna toda esta experiência mais bonita. Porque aquilo que torna o Porto tão especial e carismático, é quem está ao seu redor e nestes dois dias, que deveriam ser três, faça chuva ou faça sol, o calor sente-se com amor. E não é por acaso que digo que este é, e sempre será, o meu festival favorito. Estou em casa e em casa estou feliz. 

Foi do Inferno que a Subsolo nasceu, e é a partir do inferno que se constroi e evolui. 

Obrigado Inferno! Até para ano.