SonicBlast 25 : Quatro Dias de Caos, Transe e Explosão Sonora em Vila Praia de Âncora

Por Mia Nieves

Imagem por Miguel Martins

26 – Agosto- 2025

Entre 6 e 9 de agosto, Vila Praia de Âncora, Viana do Castelo, transformou-se no epicentro da música underground com mais uma edição do SonicBlast Fest. A edição deste ano foi uma celebração de riffs sem filtros, batidas e atmosferas, onde cada palco contou uma história própria, mas que todas convergem para a mesma sensação de entrega total. Do suor do warm-up à viagem hipnótica do psicadelismo, do doom, passando pelo caos organizado do hardcore e pela intensidade introspectiva do pós-punk, esta edição provou ser uma experiência que atravessa gerações, desafia limites e deixa marcas profundas em quem se entrega à sua odisseia sonora.

Este ano, escreveu-se mais um capítulo de Beach & Riffs, com os passes gerais esgotados muito antes do arranque. O tempo, embora caprichoso, parecia conspirar para criar momentos únicos, moldando-se a cada mudança de palco como se tudo tivesse sido intencionalmente orquestrado. Vamos por partes, começando pelo início, que já prometia um encerramento épico: o warm-up mais suado de sempre. 

A abertura ficou a cargo dos Overcrooks, que, depois de tantas manifestações para conseguir um slot, provaram que merecem estar no cartaz principal. Skate, suor e emoção: quem esteve presente nas primeiras edições do festival voltou a sentir-se “em casa” com a energia caótica e contagiante do skate rock. Para manter a session a rolar, ninguém melhor que Nerve Agent – diretamente de Birmingham –, que entraram em palco com um tributo ao Ozzy com os sintomas do universo, mas sem certezas, a temer que o seu hardcore fosse pouco compreendido. O choque veio rápido: sentiram que estavam em casa, rodeados de hardcore kids prontos para kickar a fundo os riffs thrashados em contratempo. Tanto se entregaram ao momento que alteraram o voo para ficar por Âncora, foi altamente! – Promotores, let’s talk! eheheh

Mesmo ainda no warm-up, já se sentia que o festival tinha começado a sério. Os The Heavy Brothers fecharam a noite com um DJ set capaz de deixar qualquer um a pedir mais – e pelo Ozzy, claro.

Depois de uma noite pouco dormida mas de um serão bem passado, está na altura da abertura de portas, com Capela Mortuária, e dizem por aí que foram um verdadeiro estouro e nem se sabe bem como é que as estruturas do palco 3 se mantiveram de pé. Para quem acordou sem energia, com toda a certeza saiu de lá como se tivesse mandado um time do poço até a lua. Segue-se Bow, no palco 2, infelizmente também não consegui estar presente mas pelo que me foi igualmente relatado, deixou-me com o fomo aos berros!- Felizmente, não tarda, temos encontro marcado em Coimbra para nos contarem como foi! 

Seguindo… Uma das maiores surpresas deste ano, pelo menos para mim, foi Spoon Benders. Na torre gêmea 2, ao final da tarde, trouxeram uma descarga de energia que misturou a veia psicadélica com a urgência do punk, sem nunca perder o fio progressivo que atravessa as suas composições. Entre temas de Dura Mater” e How Things Repeat”, criaram um espetáculo de contrastes, a presença em palco foi intensa e espirituosa. Conquistaram o público que rapidamente se deixou levar pela vibração crua do quarteto de Portland que chegou para ficar, e quem os viu dificilmente os esquecerá. Mas o momento alto deste dia, foi sem dúvida o reencontro com DITZ, foi a segunda vez  que os vi este ano, primeira em contexto  festival e espero que se repita. Já tinha uma noção do que aí vinha, ainda que, com algum receio sobre como a sua presença seria acolhida. Mas assim que o post-punk, o noise rock e o hardcore experimental se cruzaram em palco, o público não hesitou: abraçou-os de imediato, como se o caos lhes fosse familiar desde sempre. Garrafa de champanhe para aquecer a voz, partilha para que se dê a mimosa! O concerto foi explosivo e sem dúvida que abriu portas, enquanto subiu estruturas, para a desconstrução. Uma explosão, que é uma lufada de ar fresco quando tudo aparenta ser tão denso.

Estava na hora de recuperar o fôlego e nos direcionarmos para a torre gêmea 1, “ULURU ROCK”, são os Earthless que a partir daqui, desenharam uma viagem hipnótica feita de longas jams que cruzavam psicadelismo, krautrock, blues, jazz modal e até metal. A improvisação foi a chave, conduzida com tal clareza que mergulhamos  no tal estado em transe. O público respondeu em silêncio quase sagrado, quebrado apenas por aplausos que ecoaram como reflexo de uma experiência coletiva intensa e transformadora, mas não ficou por aqui… a verdade é que a partir deste momento, estávamos todos sobre um efeito sobrenatural. Quem me contou, descreveu King Woman como um momento “hipnótico e introspectivo”, o que só comprova a minha teoria. Já o post-metal denso de Amenra, penetrou a alma de quem os ouvia, criando uma atmosfera quase tangível. Transformaram o palco num templo de intensidade emocional e espiritual. Nunca presenciei um final como este, o público saiu deste concerto completamente pálido, como se tivesse libertado todos os seus demónios numa experiência coletiva de purificação, permanecendo em transe,  reafirmando a banda como mestres de uma comunhão sonora profunda e inesquecível.-  A sério, foi mesmo intenso! 

Chegou o momento mais aguardado da noite, se não, de todo o festival, os reis da estrada chegaram para fazer da nossa criança interior, uma criança feliz. Os californianos Fu Manchu inundaram o espaço com stoner rock sujo e enérgico. Riffs hipnóticos e grooves que lembravam estrada e deserto arrastaram o público para uma viagem quase tátil, onde cada acorde reverbera pelo corpo e pelo espírito, transformando suor, sorrisos e entrega total numa celebração do puro poder da música. Na verdade, foi tudo aquilo que estávamos à espera, sem mais nem menos.  De seguida temos os Máquina, que nos apresentaram temas novos e mais uma vez nos deram um serão de energia catártica, sem reverb! Só fico com pena que se tenha dado uma repetição, não no slot, mas no palco. Sendo esta a segunda vez seguida a estarem presentes no cartaz, pelo menos poderiam ter mudado de palco. Apesar disto, e ao contrário do que muita gente pensa, nunca haverá um concerto igual ao anterior e mais uma vez deixaram-no bem claro!  

A primeira parte termina com Inhuman Nature, fui completamente apanhada de surpresa, confesso. Que circle pit memorável, socos no ar e ninja turtles por todo o lado!! Terminou ainda com mais power(trip) do que começou, é só isto que tenho a dizer. Entendedores entenderão. – Mais Hardcore, por amor!

Já a segunda parte do SonicBlast revelou uma curadoria mais introspectiva, sem nunca abdicar do peso e da intensidade que definem o festival. Guiados pela nublina, (ou pelos gnomos que fizeram mais sucesso que Gnome) , a programação soube alternar momentos de explosão com instantes de recolhimento, criando um ritmo que permitiu ao público mergulhar em diferentes estados dentro da mesma viagem sonora.

Em destaque,a contemplação do pôr-do-sol em silêncio com Emma Ruth Rundle, em que a intensidade não veio do volume, mas da vulnerabilidade exposta e da entrega emocional da artista. Confesso que do pouco que consegui apanhar, fico feliz por pelo menos não ter perdido este momento. Logo depois, Chalk virou a energia para a dança, e puxou o público para um ritual mais rítmico. Pelo meio, bandas como My Sleeping Karma e Witchcraft mostraram o equilíbrio entre o peso lisérgico e o misticismo mais psicadélico. 

DAME AREA! Vindos de Barcelona, Dame Area trouxe um espetáculo cru e inquietante. O duo moldou o palco com batidas austeras, sintetizadores saltitantes e vozes que soavam como invocações, abrindo as fendas entre o tribal e o industrial. A presença magnética e desarmante, obrigou os mais céticos a sair da zona de conforto e a mergulhar num turbilhão rítmico, tão físico quanto mental. – e ainda bem,chamem de novo! 

A diversidade do cartaz deste ano mostrou-se um dos pontos mais marcantes do SonicBlast. Mesmo perante alguma controvérsia entre parte do público, que esperava uma linha mais rígida dentro das sonoridades pesadas, a aposta num ecletismo consciente acabou por permitir a abertura a novos horizontes. 

Último dia, o dia que mais deu que falar, ou que, se falou de mais, o meu menu foi : Messa, The Atomic Bitchwax, King Buffalo, Monolord, Patriarchy, Circle Jerks, Molcha Doma e Dopethrone. – ficaram cansados ? Pois! Eu também, mas prometo ser breve. 

Difícil dizer onde se conseguiu tanta energia para esta pujança toda, no último dia do festival. Messa abriu o palco principal com um golpe de doom e uma gargalhada sombria que se derramou sobre a praia, marcando o início de uma odisseia sonora carregada de peso e mistério. Logo depois, The Atomic Bitchwax trouxe o deserto ao mar: stoner rock sujo e implacável, riffs que queimavam como sol escaldante, e grooves que cicatrizavam a alma de quem ali estava.

Enquanto isso, King Buffalo elevou a viagem psicadélica, criando um nevoeiro de riffs densos e hipnóticos, como se fosse possível nadar em melodia líquida. E depois vieram os Monolord, soberbos e brutais, riffs titânicos que soavam como gigantes a acordar nas dunas, uma força que ressoava como trovões nos corpos presentes ansiosos por aquele momento.- Não é muito a minha cena, nem fiquei totalmente rendida, mas há que admitir que foi forte. 

Quando Patriarchy explodiu no palco, aqui sim, foi puro choque industrial: dança metálica, groove como um relâmpago eletronico que rasga o silêncio. Para mim, a cereja no topo do bolo.  Preparam o  terreno para Circle Jerks, que entram a rasgar com hardcore sincero e irreverente com tudo para ser incrível, no entanto, apesar de terem tocado 25 músicas,  havia demasiado a ser dito, mas muito mais a querer ser só ouvido. Fiquei contente por finalmente os ter visto ao vivo, mas se a criança interior já estava feliz, aqui ficou contente mas não radiante, como esperava ter ficado.. foi um turbilhão de emoções ainda a serem processadas. 

Combinando com o crescendo, Molchat Doma trouxe o pós-punk synth-pop com uma atmosfera fria e hipnótica, minimalismo brutalista que fez o público mover-se num êxtase coletivo sombrio e elegante. Mais do que isso, é impossível não refletir sobre o mundo em que co-existimos: sim, é fácil torcer o nariz a uma banda com um hit viral no TikTok, mas essa mesma visibilidade é também uma ponte e uma forma de boa música alcançar mais pessoas, especialmente os mais novos, despertando-os para universos sonoros que talvez nunca tivessem explorado. E, apesar de qualquer dúvida inicial, mesmo os mais incrédulos ficaram rendidos à força hipnótica e irresistível deste concerto. – Prove me wrong!

Para fechar com o peso que arde: Dopethrone esmagou com sludge puro, sujo de ferrugem e fúria, como se o chão fosse implodir sob cada acorde. Para os que se acham a Beyoncé da cena local,até podem ser uns obtusos, mas para quem realmente esteve lá com todo o seu ser,com um único propósito – ouvir – não fala de outra coisa até hoje. Foi sem dúvida o melhor encerramento que se poderia esperar. Aos mais sensíveis, sorry not sorry, mas não consigo mesmo entender o fascínio por Castle Rats. Aliás, até consigo, mas são outros 500. Ah! Também fiquei triste por não ter apanhado Slomosa, mas a vida é mesmo assim,ouvi dizer que foi giro! 

Bem, concluindo, a programação ligou o stoner e o doom às linguagens do pós-punk, da eletrónica ou até a momentos mais contemplativos, provando que o espírito do festival não está preso a rótulos.

Essa mistura é importante porque mantém o SonicBlast vivo, imprevisível e em diálogo com um público cada vez mais plural. Ao criar espaço tanto para a catarse dos riffs densos como para viagens mais experimentais ou introspectivas, o festival oferece uma experiência completa e uma verdadeira travessia de contrastes. Para quem se deixa levar, como eu, este cartaz foi incrível: uma demonstração de que o peso não se mede apenas no volume, mas também na coragem de arriscar. 

Comam caldo verde,não tenham medo de dançar e queiram sempre Palestina Livre.

Obrigado Sonic Blast, 

Até para ano Blasties, vemo-nos no Inferno.