Válega em Chamas: Morte ao Silêncio Une Todas as Vertentes do Punk Contra a Neutralidade
Por Mia Nieves
Imagem por Diogo Azevedo
04 – Agosto- 2025
Dá-se então o início oficialíssimo do festival e no cardápio temos de tudo. Tudo aquilo de que o Punk é feito, e de onde tudo veio e começou.
Gringo’s Paradise incendiaram o palco com uma mistura explosiva de ska punk, ritmo e presença. No sopro a faísca, na batida um empurrão para dançar e o público, a suar mas rendido, seguiu com eles até ao fim. Foi um concerto quente em todos os sentidos: festivo, político e impossível de ignorar. Felizmente, o som fala sempre mais alto, e mostraram que, no punk, a língua certa é a da entrega.
Segue-se VERME, que foi como assistir ao Gingal a ruir em direto, lento, pesado, irreversível. Trouxeram ao ao palco um som carregado de ferrugem e fúria, distorção arrastava-se como betão a ceder, enquanto a voz, cravada de raiva e desespero, gritava contra tudo o que está prestes a desabar. Sem poses, só entrega crua.







Após a pausa, já sabíamos o que nos esperava: uma rajada de peso do mais pesado. Em destaque, Manferior, ClericBeast e Captain Coke.
Manferior, invadiu o palco! Gritaria rasgada, guitarras afiadas como cacos de vidro e uma bateria que parecia empurrar o tempo para a frente à força bruta. O público, apanhado numa avalanche de som, reagiu com o corpo. ClericBeast, por sua vez, apareceu como uma entidade que oscila entre o ritual e o caos absoluto, sujo e labiríntico. Era preciso estar presente, inteiro, ou ser engolido. Riffs entrelaçados, mudanças de tempo alucinantes e uma presença em palco que equilibrava precisão e instinto animal. Parecia uma sessão de exorcismo feita com instrumentos afinados pelo inferno e resultou. Foi uma parede sonora com pulsações próprias, e quem ficou a ver, saiu transformado ou pelo menos abalado.
Mas a grande estrela da noite foi Captain Coke, que encerrou as hostes no palco situado de surra numa das laterais do recinto. Se os elementos que complementam este trio já dão muito que falar entre os pits, o melhor foi mesmo o momento de união e partilha pelo espaço que ocupam, com todos aqueles que o quisessem ocupar. – Punk, é de todes e para todes!









Sob um sol abrasador que parecia querer derreter até o asfalto, Queimada abre o segundo, e último dia de festival, como se o próprio nome da banda tivesse invocado o clima. O calor era tanto que mal piscava-mos, mas bastaram os primeiros acordes para que a eletricidade crua e urgente incendiasse o ambiente de outra forma. Com uma entrega feroz e sem rodeios, elas transformaram o calor sufocante num ritual, provando que, mesmo sob 40 graus, a chama da cena underground continua viva e perigosa. O melhor disto tudo, é que voltaram a dar-nos jarda mais tarde, desta vez, no palco principal. – Deixaram de tocar no campismo, para tocar no palco “secundário” e ainda partir ao meio o principal, Queens be Queening!
SKATE ROCK DON’T LET ME SLEEEEEP!!!
Overcrooks, foi uma descarga elétrica de pura energia, refletindo toda a força e rebeldia do skate com a agressividade do punk. Agarraram o público desde os primeiros acordes, a interação entre os membros no palco era extremamente contagiante, com uma química que parecia impulsionar cada música para níveis ainda mais intensos e não foi só pela cover de Black Flag! Continuam a conquistar espaço na cena musical portuguesa, mantendo viva a chama do espírito rebelde e independente que caracteriza o gênero. São a prova viva que por mais que os elementos vão girando, OC é e será sempre sobre coletividade e amizade em primeiro lugar, tal e qual como se tivessem numa skate trip.Sem dúvida valeu a pena a espera, e a terceira foi mesmo de vez!!






Segue-se Driskrasuki, e epa… foda-se! Surpreendeu e deixou a chorar por mais!!
Carregada da fúria característica do crust punk do Porto. Com riffs pesados e bateria rápida, a banda conseguiu transformar o palco num campo de batalha onde a urgência e o desespero se materializaram em música bruta e direta. Os vocais agressivos cortavam o ar, como gritos de revolta contra um mundo marcado pela injustiça,e deixaram todes a vibrar numa comunhão de energia crua. A postura intensa, aliada à sua entrega sem concessões, criou uma atmosfera carregada, onde cada acorde era um chamado à ação e resistência.
Quando Seni (vocais), deixou o palco para mergulhar no pit e puxar o mosh, a atmosfera mudou instantaneamente, libertando todos aqueles que ainda se seguravam e os corpos uniram-se numa explosão de energia crua que mesmo sendo o último concerto da tarde, manteve o fogo aceso até o último acorde da noite.




Pós a pausa, vamos de caixão à cova, mas antes sobem ao palco os míticos CDM, sem o Miguel, mas com entrega total.
Já de Estado de Sítio, não poderíamos esperar outra coisa, se não um throwback aos nossos tempos de Casa Viva, com toda a entrega do agora. Há um peso ideológico que transborda dos instrumentos e das letras, como as críticas ao capitalismo, à opressão, à alienação, que reverberam através de cada um de nós estimulado pela sua proximidade e presença imparável. No final, permanece um eco de fúria libertadora, provando que o palco é, acima de tudo, ponto de encontro e contestação.
Diretamente do Poço, Capela Mortuária é uma verdadeira catarse sonora. Riffs cortantes, blast beats furiosos e um dinamismo que incorpora tanto o thrash tradicional quanto toques de death, punk e metal moderno. – Olhem, Do caralho!!







BAS ROTTEN!!!! Se andava tudo a bater mal com a atuação no Obscene Extreme Fest, é bom que falem desta, durante o triplo do tempo!!
Bas Rotten representa o que há de mais feroz na cena: velocidade, distorção, energia sem pausa. Cada tema funciona como um soco cronometrado, desenhado para quebrar os limites físicos e emocionais de quem ouve, seja gravado, seja ao vivo. É um caos meticulosamente orquestrado, sem introduções, sem pausas, só pura violência sonora. Os blast beats colam-te à parede, enquanto os riffs serrados e os vocais cortantes rasgam o ar como uma sirene em plena zona de guerra. O baixo faz o chão tremer, e o público responder com mosh frenético, entre trocas e baldrocas na bateria, mas ninguém pára, como se cada concerto fosse o último antes do colapso. Nem parecia que estavam a chegar de tour! Surreal!





Por falar em tour, trouxeram os Gummo com eles, uma das forças mais extremas e autênticas da cena grindcore/powerviolence francesa. São uma mistura pulverizadora de riffs rápidos, blast beats agressivos e vocais brutais, com pitadas de humor ácido num grind cru e sem filtros. Um trio sem baixo: usam um único amplificador de guitarra e baixo simultâneo para intensificar o impacto direto das frequências médias-altas e funciona como um soco no estômago na mesma e olhem que sou gaja de basslines. Enfim, “Play Fast / Strike Hard” , ainda estou em recuperação.
Sabem o que é que caiu mesmo bem para encerrar o palco principal ? Mais uma dose de Queimada e uma bela surpresa ritualística de Soul of Anubis.
Sim, porque o festival estava longe de se dar por encerrado e a cereja no topo do bolo foi um dj set repleto de clássicos, muito punk rock, muito punk n roll, e claro BLACK SABBATH!






No final, o que se viveu neste festival foi mais do que uma sequência de concertos, mas sim um manifesto sonoro, cru e coletivo. Cada banda trouxe uma linguagem própria, mas unida por uma urgência comum: dizer, sentir, libertar. O que tornou esta experiência ainda mais rara foi a ousadia de um cartaz verdadeiramente eclético, onde todas as vertentes do punk – do crust ao grind, do hardcore até à experimentação, coexistiram no mesmo espaço.
Num tempo em que a fragmentação domina e os nichos raramente se cruzam, este encontro provou que a diversidade sonora não é uma fraqueza, mas uma força. Em válega, o palco não separa ninguém. Pelo contrário: une corpos, ideias e barulhos. E quando a energia é real, o resto arde por arrasto.
Um abraço ao Bob e ao Mansour, por nos lembrarem do porquê de termos começado a frequentar este meio em primeiro lugar, e relembrarem o porquê de continuarmos aqui! Vá, com tanto bailarico, está mesmo a pedir uma intervenção da Sabbath Skateboards. Fica aqui o desafio de, para o ano se montar um playground para rock n’ rollerrr – nós ajudamos!
Besitos e até já,
Seguimos para Âncora!


