ROQUE ROCK FEST: GANDA NICE
Por Rafael Oliveira
Imagem por Francisco Moura
05 – Junho- 2025
O título deste artigo por si só já carrega uma expressão icónica, claramente roubada dos muitos escritos marcados nas paredes da Gasoline, no Barreiro. Traz também a sensação que esperávamos viver nesta noite, com cartaz eclético e de celebração do nosso amigo Pedro ROQUE (perceberam agora o nome do fest né, eu disse que era Ganda Nice).
O mote foi dado de maneira subliminar desde o início, aliás concertos num halfpipe dispensam quaisquer apresentações. A abrir tivemos Scorpions (do Barreiro) seguidos de Estranhas Entranhas, concerto surpresa de Asimov Folkways e Dokuga, mas calma que isto ainda era só a primeira leva de som. A noite acabou nas mãos das Twisted Sisters+Jenny Tall e Kara Konchar que nos varreram com dois sets incríveis para desembriagar o esqueleto, distribuindo moves ferrugentos pela pista de dança.











Leram bem, Estranhas Entranhas podia ser o nome de um daqueles filmes de terror antigos com monstros no lago. A cena é que aqui o monstro é mesmo a parede de som horripilantemente arrepiante que é debitada pelo gemer de instrumentos musicais que se encontram suspensos num terror existencial constante (também me custou a respirar enquanto escrevia isto don’t worry). Se os Scorpions nos tinham levado por uma espécie de contemplação nostálgica, os Estranhas Entranhas lembraram-nos da queda de boca no chão que é a vivência da existência. O som foi metálico cheio de drone também, tipo arrastão abrasivo através de noise e dissonâncias. Mais uma vez um grupo com a particularidade de usar a voz como todo um instrumento, processada por efeitos que ajudam a criar todo um ambiente.











E do nada a parte meditativa, a “calma” (ou aceitação do inevitável) pelas mãos de Asimov Folkways, o concerto surpresa da festa do Roque Rock, que nos fez viajar eternamente por uma estrada empoeirada no deserto (sim daqueles à roadtrip americana). –Numa entrega directa tivemos um concerto que trouxe a sensação de parecer um absoluto fluxo contínuo, paisagens de folk e inspirações blues. Com uma execução quase psicadélica na maneira como as músicas se iam desenrolando, desfazia-se a amostra de calma e começava a fervilhar o caos.





Dokuga, d-beat punk, nós, mosh. Tive de ir dar um surfzito ao público, porque sou um escritor empírico claro, e porque o fim do ciclo de concertos está a explodir neste momento.
A multidão que esteve sempre presente, mas por vezes dispersa, ao longo da noite, tinha-se agora condensado e estava mais aconchegada. O entusiasmo espalha-se rápido numa união de corpos deambulantes, o caos é invocado pelo debitar enérgico dos Dokuga, explosivo e acelerado. Há mosh, crowdsurf e o diabo a 7, há celebração e união. A entrega da banda e a entrega do público em conjunto, um bom auge para o último concerto. Foi um assalto sónico, tipo serrote, sôfrego até ficar incandescente (e nós ofegantes no meio do pit), punk rápido e cheio. Houve direito a um fim de concerto digno e mais que sentenciado cuja última música foi a mítica “Glória ao Vicío”. Tudo dito né SIgned, Sealed and Delivered.














E assim que desaguou o icónico Roque Rock Fest, agradecemos a honra que foi estar presentes para documentar tal feito do underground. O próximo é daqui a 10 anos?
Temos de perguntar ao Pedro Roque, mas talvez sim porque o corpito já não aguenta uma festa assim todos os anos.












