"Devaneios": O Som da Inquietação
Por Mia Nieves
Imagem por Miguel Martins
04 – Abril – 2025
A estreia discográfica de uma banda é sempre um momento de exposição crua. “Devaneios”, o primeiro EP de Alomorfia, é um trabalho que respira essa vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, a converte em força. O que encontramos aqui vai para além de uma coleção de músicas; é um mergulho de cabeça num universo que oscila entre a incerteza e a intensidade. – Já sabem que tenho uma queda por poesia e destruição.





O primeiro acorde dá-nos “Sonho” com uma melancolia envolvente, onde a sonoridade se torna mais espaçosa, quase etérea. A letra fala da fragilidade da percepção, da ilusão do controle. Fala-nos na primeira pessoa, do idiota esse que habita em todos nós , que acredita na arte e que grita no pico com fúria e que com furia a cria.
O single de estreia, “Eclético”, que tanto nos deixou a fervilhar por este EP, é um choque elétrico logo à primeira audição. O verso “o estranho só espanta o inerte” ressoa como um grito de guerra, um desafio direto à comodidade e ecoa o espírito provocador do punk. – Remete-me de imediato a letras como as dos Fugazi ou dos The Fall. As guitarradas rasgam o espaço com distorções penetrantes, enquanto a bateria impulsiona tudo para a frente, sem olhar para trás. Sente-se uma urgência, uma vontade de romper com qualquer estagnação, e isso torna-se quase um convite irrecusável. O espírito de rebeldia e a construção sonora bebem do ethos do noise rock e do post-punk experimental. – Escusado será dizer que melhor “cheirinho” do que estaria por vir, não poderia ter sido mais bem mandado.






Já “Mistério do Tempo” carrega a estranheza da reflexão incessante sobre o que somos e para onde vamos. Aqui, a banda mergulha num turbilhão existencial,os riffs criam espirais sonoras que se entrelaçam com a voz, transmitindo um constante estado de vertigem. É uma daquelas faixas que nos deixa pairar entre a tensão e o alívio, sem nunca nos dar uma resolução definitiva.A estrutura flutuante e a sensação de vertigem da música remetem ao “pós-rock” enigmático dos meus queridos Slint. – yES! I do have a type.
No entanto, se há um tema que captura a vontade crua de reagir ao mundo, é “Impulso”. A energia deste tema é palpável, como se cada batida da bateria e cada acorde dissonante estivessem prontos para nos arrancar do imobilismo. A voz grita, as guitarras explodem, e o corpo responde instintivamente. É uma explosão sonora que não pede permissão para existir. O que facilmente se poderá tornar o hino dos nossos tempos,visto que vivemos numa altura em que quase temos de pedir por favor para tentar sobreviver e existir, numa cidade insana que nos corroi a cada passo da calçada.







Segue-se o último suspiro antes do vazio, com o jogo de sombras e luz de “Freima”, que fecha o EP com o seu caráter quase hipnótico, como se nos puxasse para um transe inquieto. O fluxo das palavras é incessante, como um pensamento que se recusa a ser calado. O ritmo ondulante que percorre a faixa cria uma tensão constante, prendendo-nos num limbo entre a contemplação e o desespero. E no final, fica a sensação de que algo ficou por dizer, mas no fundo está tudo dito. Chorar é Sentir para Resistir, com a única certeza que nada se sabe. É uma despedida sem conclusão, um eco que continua a vibrar mesmo depois de a última nota desaparecer.




Alomorfia não se esconde por trás da música. Vive-a, sangra-a. Tornando cada nota numa batalha e cada refrão uma sentença. Quanto a mim, ainda não encontrei resposta para a pergunta “qual delas é a minha favorita?”. Assim como este EP esteve em constante mutação ao longo de aproximadamente três anos, eu também. A cada audição, vejo-me refletida nas suas camadas, e é na inquietação que encontro um lar. “Devaneios” torna-se assim um testemunho não só da minha, mas da inquietação humana, um exercício de vulnerabilidade e de força extremamente necessário. É uma urgência real, sem filtros nem artifícios.Reflete a voz de uma geração e sede pela subsistência.É ação, reação em estado puro de erupção.

