TRAVO de Braga para o Mundo: Sonoridade, Experimentação e Conquistas Inesperadas

Texto por Mia Nieves

Imagem por Carlos Cruz

24 – Março – 2025

A trajetória de TRAVO é uma verdadeira história de evolução, desde a sua origem como uma banda de amigos que começou a experimentar sons psicadélicos até se consolidar como um dos nomes promissores da cena musical nacional. Ao longo do tempo, a banda foi refinando a sua sonoridade única, sempre com a experimentação no centro de seu processo criativo. O marco da gravação da sua sessão na KEXP representou não só uma conquista pessoal, mas uma validação do trabalho árduo que os levou até lá.

1. Origens & Formação

TRAVO tem vindo a afirmar-se como uma das bandas mais intrigantes da cena nacional, construindo um universo sonoro onde o peso, a psicodelia e a energia crua fundem-se de forma única. Mas antes de chegarem a este ponto, houve todo um caminho de descobertas, experiências e momentos de viragem.
Para começar,

Como nasceu  TRAVO? Houve algum momento específico em que sentiram que a banda realmente tinha encontrado o seu rumo?
Quando começaram a tocar juntos, já tinham uma ideia clara da sonoridade que queriam explorar, ou foi um processo mais experimental?

Começamos em 2015 como uma banda de 5 amigos da escola secundária em Braga. No início apenas queríamos juntar-nos e fazer música que se assemelhasse à que ouvíamos na altura. Andávamos muito naquela onda do neo-psych dos 2010s, com bandas como Tame Impala ou Pond a serem grandes influências.

Passámos por um período de aprendizagem pessoal e musical e depois de algumas mudanças de formação, com a chegada do Gonçalo Carneiro em 2017, sentimos que havia um rumo a seguir. O grande fio condutor desde o início até agora é o rock e fazer música que, de certa forma, se enquadre num registo psicadélico, itinerante, ou o que quiserem chamar.

A experimentação fez sempre parte do nosso processo de composição. Gostamos de sentir que há evolução na nossa sonoridade com o passar do tempo e não nos interessa estagnar num certo tipo de som ou género, portanto a experimentação vai ser sempre uma constante.

O nome TRAVO tem algum significado especial? Como chegaram a ele?

A origem do nome TRAVO não podia ser mais desinteressante (risos). Foi um brainstorming normalíssimo num intervalo da escola. Na altura queríamos um nome em português, curto, mas que se pudesse associar ao tipo de música que queríamos fazer. Surgiu TRAVO e foi ficando até agora.

2. Sonoridade & Processo Criativo

A textura densa das guitarras, os ritmos hipnóticos e a energia crua criam um ambiente que parece estar em constante movimento, oscilando entre a tensão e a libertação.

Esta assinatura sonora foi algo que se revelou com o tempo ou sempre esteve presente desde os primeiros dias da banda?

Certos elementos da sonoridade que apresentamos agora, estão connosco desde o início, como as linhas de guitarra mais espaciais. Agora a execução técnica e a composição evoluíram naturalmente com o passar dos anos. Outros elementos, como a energia crua e os ritmos mais rápidos e hipnóticos foram sendo incorporados com o tempo, à medida que os nossos gostos foram evoluindo.

Como abordam a captação e produção dos vossos instrumentos,alguma técnica específica que utilizam em estúdio ou ao vivo?

Não usamos nenhuma técnica assim muito fora da caixa. Nas duas últimas experiências em estúdio, com o nosso ilustre produtor Budda Guedes, experimentamos alguns amps de guitarra diferentes, alguns dos quais à primeira vista seriam impensáveis de utilizar. Os nossos vocais também são bastante processados com saturação, reverb e delay, mas tudo dentro do normal, diríamos. Ao vivo, também é tudo bastante simples: Baixo, guitarras e os respectivos amps e pedais, voz, synths e bateria. Gostamos deste equilíbrio entre o orgânico e o sintético.

3. Experiência com a KEXP & Trajetória

A oportunidade de gravar uma sessão na KEXP é um sonho para muitas bandas, e para TRAVO, esse momento surgiu de uma sequência improvável de acontecimentos. Uma decisão que quase não foi tomada acabou por abrir portas para uma experiência transformadora. Do FOCUS Wales ao Trans Musicales e, finalmente, à icónica rádio de Seattle, o caminho foi marcado por surpresas e conquistas inesperadas.

A vossa sessão na KEXP foi um marco incrível. Como descreveriam a energia deste momento e o impacto que teve na banda?

Foi um momento único e que nos deixa muito orgulhosos. Teve o impacto imediato de nos unir e fazer perceber que é possível fazer mais e chegar mais longe. Também foi uma injeção de auto confiança. Quando começamos a banda, alguns de nós estavam a aprender o respectivo instrumento pela primeira vez. Temos plena noção que as coisas não soavam muito bem no início e ao comparar-nos naturalmente com outras bandas do nosso meio sentíamos um bocado síndrome de impostor. Esta tendência auto depreciativa foi-se mantendo no seio da banda, mas deu-nos também força para tentarmos evoluir enquanto músicos. Momentos como este fazem-nos parar para pensar que todo o trabalho árduo, todos os ensaios e todos os falhanços valeram a pena, e perceber o quanto evoluímos enquanto banda durante estes anos. Nenhum de nós imaginava que isto pudesse acontecer tão cedo. Estamos confiantes também no impacto que terá quando for lançada, mais ao nível da exposição internacional.

A trajetória até esta oportunidade começou com uma decisão quase hesitante de tocar no FOCUS Wales. Como lidam com essas encruzilhadas na vossa carreira?

Tentamos lidar com estas encruzilhadas, e têm sido algumas, da maneira mais profissional possível. Temos uma estrutura incansável que quer o melhor para nós e nos dá na cabeça quando começamos com estas hesitações, que é a nossa agência de booking e management, gig.ROCKS!, a quem estamos eternamente gratos e sem a qual nada disto seria possível.

Como foi a experiência de captar a vossa energia ao vivo para a KEXP? Houve algum desafio técnico específico na gravação?

O momento da gravação da sessão vai ficar connosco para sempre. Foi um prazer enorme conhecer parte da equipa da KEXP. São profissionais de excelência, super terra-a-terra e fizeram-nos sentir muito à vontade. Tecnicamente correu tudo na perfeição. O mais difícil foi mesmo controlar os nervos, mas ficamos muitíssimo satisfeitos com o resultado e a malta da KEXP pareceu ter curtido muito também.

4. Futuro & Reflexões

 TRAVO tem vindo a deixar uma marca cada vez mais forte na música portuguesa, mas o caminho de uma banda independente está sempre em evolução. Com um percurso que já conta com momentos inesperados e marcos importantes, há sempre a questão: o que vem a seguir.. Para onde leva este caminho que a banda tem vindo a traçar.

Qual foi o momento mais surreal que viveram enquanto banda até agora? 

O mais surreal foi mesmo o momento em que tivemos a confirmação da gravação desta sessão KEXP, por tudo aquilo que representa e por ser algo que sempre nos pareceu inatingível. Temos outros momentos, que não classificaríamos como surreais, mas que foram inesperados.

Em 2022 fomos completamente apanhados de surpresa com o nosso slot no Sonic Blast, por exemplo. Tocamos à uma e meia da manhã, a seguir a um concerto estrondoso dos Slift. Olhando para trás percebemos que não estávamos de todo preparados e que o concerto não correu bem, mas ficou a aprendizagem.

Outros momentos quase surreais acontecem quando tocamos para públicos lá fora e sentimos aplausos como nós aplaudimos bandas que adoramos e felizmente é algo que tem acontecido com cada vez mais frequência. De resto, há sempre aqueles momentos surreais mas que só podem ser confidenciados off record (risos).

Depois de um marco como a KEXP, quais são os próximos passos para a banda? Algum plano para novas gravações ou uma tour mais extensa?

Estamos neste momento a acabar de compor e planeamos gravar o próximo álbum em 2025 e lançá-lo em 2026. Temos também planos de fazer uma nova tour europeia em Agosto, mas nada de muito extenso. Para além da tour temos alguns concertos lá fora com os quais estamos muito entusiasmados, como o mítico Freak Valley Festival e outros cá em Portugal.

Que lugar acham que TRAVO ocupa no atual cenário musical português? Sentem que há um reconhecimento crescente ou ainda há um certo caminho a percorrer para que bandas como a vossa tenham mais visibilidade por cá?

Não fazemos ideia que lugar ocupamos no atual cenário musical português nem pensamos muito nisso. Sentimos esse reconhecimento crescente, mas também temos noção que Portugal é um país pequeno e não tem a cultura nem a abertura para este tipo de som como tem uma Alemanha ou Holanda.

Há um caminho a percorrer, mas não o estamos a fazer sozinhos. Felizmente têm surgido bandas incríveis que puxam público para este tipo de sonoridades, sendo o exemplo mais flagrante os MAQUINA, que respeitamos e admiramos muito. Temos consciência também que esta sessão KEXP vai abrir algumas portas.

Se pudessem voltar atrás no tempo e aconselhar a versão mais jovem da banda, que conselho dariam?

Por mais clichê que possa parecer, não temos nenhum arrependimento na nossa carreira até agora, portanto achamos que não haveria a necessidade de aconselhar os nossos eus mais jovens. Ou melhor, pensando bem, dizer-lhes para usarem protetores auditivos nos ensaios mais cedo talvez não fosse uma má ideia (estamos a ficar surdos). Isso e investirem o dinheiro dos primeiros cachês em bitcoin.

Por fim,

Como gostariam que a vossa música fosse lembrada daqui a alguns anos?

Se a nossa música for lembrada daqui a alguns anos já vai ser gratificante o suficiente. Tudo o resto é extra. Viva ao rock. Beijo e abraços!

Com uma trajetória marcada por surpresas e uma crescente visibilidade internacional, este quarteto bracarense está mais que pronto para continuar a explorar novas sonoridades, com planos de gravações e uma nova tour europeia. Embora reconheçam os desafios da indústria em Portugal, a banda permanece focada na sua evolução artística, sem pressa, mas com a certeza de que estão a deixar uma marca única na cena. Se no futuro forem lembrados pela sua música, já valeu a pena. O futuro promete, e o caminho de TRAVO ainda agora começou, pelo menos bem acompanhados estão. – A gig.rocks!, e rocka muito!