Shark Attack: Domincore com classe
Texto por Francisco Moura
Imagem por Francisco Moura & Carlos Carvalho
23 – Fevereiro- 2025
Por norma, o domingo tende a ser um dia de descanso, mas na Sala Lisa, deu-se um belo Domincore, powered pela Shark Attack que como já é habitual, garantem que é impossível estar parado.
Ainda com luz do dia, já havia uma fila simpática e entusiasta, para assistir a 4 bandas de várias vertentes do “core”, possibilitando-nos uma viagem entre “Powerviolence”, “Grindcore”, “Hardcore” e “Beatdown”.
Por falar no Shark Attack, é um coletivo de malta jovem, que já faz concertos desde à 10 anos, mas o tempo passa tão rápido que parece que foi ontem. O Gonçalo (também guitarrista de Clericbeast) já organiza concertos desde os 15 anos. O sonho da Shark Attack já está realizado, que é mostrar bandas emergentes a terem palco. Eles ambicionam em lançar bandas portuguesas ao estrangeiro, para que possa haver mais reconhecimento internacional. É provável que a Back to School volte a acontecer em 2025. Pode-se considerar bandas como Hetta, Reia Cibele, Clericbeast, Mouthful of Grief, Insurgência ou Deathclean (entre outras) como uma “New Wave” da música pesada portuguesa e a Shark Attack faz parte não só do Underground nacional, mas também, indiretamente, apoia e fruta o futuro de várias vertentes artísticas, tudo com amor à camisola.
Vamos agora ao prato principal. Um belo prato de porrada.
Os Mouthful of Grief é uma banda fresca aqui de Lisboa, mas iniciou-se na Madeira (pelo João e Nuno). Estes moços fizeram um showcase bastante intenso. Para quem gosta de Full of Hell e Nails, os Mouthful of Grief saciam a fome às pessoas ao pessoal que adora Powerviolence.
À conversa após o gig, com o Vasco, eles estão prestes a estrear o EP para depois ser usado nas nossas vidas rotineiras. Na boa que vai arrebentar.
O concerto começou com mais ou menos com 4 minutos de feedback, que gerou uma vibe de estarmos num concerto de noise.
Abriram-se as hostilidades, quando a guitarra começou levemente a soar um riff lamacento, enquanto se ouve também uma voz estridente, que dá a sensação, de estarmos dentro de um caixão. Ao longo deste gig, houve muitos blast beats e D-beats, nos quais fomos deliciados com uma parede sónica e dissonante. Estes jovens lisboetas relembram também os Portrayal of Guilt pela jovialidade e pela sonoridade.
Realmente é mesmo muito complicado explicar por palavras a estreia deste grupo, pois deve ser ouvido mais vezes e também merece ser seguida com muita atenção.




A seguir veio Manferior. FODA-SE! Como sigo a banda desde que deram um concerto fenomenal no RCA, com direito a mosh numa névoa fodida, qualquer oportunidade de ver este quarteto de Leiria, é um prazer. O concerto teve direito a “mimos” do próximo disco.
Quem pescou que eram novas, “ganhou”. Dá sempre gosto de ver o Rui (também de BØW) a tocar com os seus camaradas durante 3 malhas, tal como ouvir a “Wasting Away” dos fuckin’ Nailbomb. Desculpem lá o palavreado todo, amo estes marotos e não vos vou mentir.




Outra banda que adoro é BØW. Este grupo que é quase um super grupo. Aliás. É um super grupo!
Estes veteranos têm andado a fazer gigs em Espanha, espalhando o amor pelo Hardcore. Ver o João (vocalista) no meio da malta a puxar pelo mosh e o Henrique (guitarrista) a ir feito maluco com a sua Gibson SG, pró meio dos putos, também não consigo explicar muito, mas sei que vale a pena ver e estar lá pelo meio. Sinto uma grande energia ao vê-los ao vivo.
Two-step extravaganza como manda a lei de não haver lei.
Verdade seja dita que eu e o João adoramos o Mike Patton e Nirvana, e fica prometido, um EP com rarities e novo material. Ficou em aberto que façam um registo da Territorial Pissings, porque quando BØW, a tocam ao vivo, ninguém fica indiferente e a malta fica, BANANAS!





Para terminar este Domincore, os Clericbeat arrebentaram com tudo! Uma banda que já está bem apurada, com vibes dos Vein.fm, pronta para qualquer cena. Os moços ainda tavam a fazer o soundcheck e já havia putos a fazer crowdsurf.
Foi mesmo lindo este momento. Desde o primeiro riff, até ao fim, foi uma porrada descomunal. Lá para o fim, uma parte do teto foi abaixo. Literalmente. Quem me dera exagerar. Aconteceu! Para o fim, a grande Micas começou a pontapear o pessoal da banda, até indo para cima da bateria, nunca com intenção de magoar, mas como agradecimento da descarga que foi este concerto.
O Beatdown foi mesmo vivido lá dentro da Sala Lisa. Que tareia. Ao falar com o Pedro, ficou o sonho dos Cleric tocarem com os Full of Hell.





Sem dúvida que foi um domingo do caralho para todos nós. As 4 bandas foram muito bem
curadas pela Shark Attack e falando por mim, estou ansioso para que haja mais gigs destes. Apesar do nosso circuito ser bastante nicho, dá para sentir que podem contribuir algo que possa ser maior do que os próprios músicos. Ficou-me a ideia de que Clericbeast e Mouthful of Grief, possam mudar o mundo, mas a realidade é que eles dependem da malta que vai aos concertos e oiça em casa, para que possam partilhar pelo mundo. Esta “New Wave”, só funciona se a malta acredita. Se até eu acredito que eles possam mudar o mundo, será que haverá mais pessoal que também o acha? Espero mesmo que sim.
