QUEIMADA: Chamas de Ruído, Fogo de Resistência
Texto por Mia Nieves
Imagem por Diogo Azevedo
20 – Fevereiro- 2025
Se o punk ainda é um grito de revolta, Queimada é o incêndio que se recusa a extinguir. Com riffs rápidos, letras afiadas e uma presença que desafia qualquer molde, a banda não se encaixa – queima e ilumina. A urgência não é só musical, é uma necessidade de destruir o que já não serve e construir algo novo, genuíno e sem concessões.
Origem da Banda
Lançar uma banda nova em 2025 significa navegar por um cenário muito diferente daquele das gerações anteriores. O espírito DIY continua vivo, mas enfrenta desafios modernos, desde a digitalização da música até a sustentabilidade de espaços alternativos.
Como nasceu QUEIMADA, e qual foi a chispa para formar a banda?
Queimada nasceu da necessidade de criar um projecto unicamente feminino não apenas pelo facto de querermos ter um projecto feminista e representativo das minorias mas também pela própria experiência em si. Isto porque todo o nosso percurso na música até agora sempre foi trabalhado e partilhado essencialmente com homens.
Dito isto, a Bea (bateria) teve a iniciativa de abordar a Maria (guitarra) e a Pepper (voz) para a formação daquilo que é Queimada hoje. Ainda um projecto em construção mas que já nos está a dar toda uma experiência diferente, da qual estamos a gostar e nos está a trazer algo gratificante.
Não que os outros projectos não nos tragam uma experiência gratificante, mas este tem um gostinho especial sem dúvida.
Como descrevem a vossa sonoridade e o que querem transmitir com ela?
Acreditamos que a nossa sonoridade destaca-se justamente pela fusão, cada uma detém uma própria identidade musical, até bem distinta. Assim conseguimos trazer para o nosso som uma mistura única de referências e estilos sendo difícil encaixar em um único rótulo. Cada composição é uma expressão pessoal, onde transmitimos as nossas emoções no momento, resultando assim sons imprevisíveis.
Dentro do punk, cada pessoa tem um percurso diferente, é claro, mas há algo que todas têm em comum: no início, a revolta é voltada para fora, contra o mundo. Com o tempo, porém, essa revolta vira para dentro – passamos a refletir sobre o que há de errado connosco e como podemos mudar. Liricamente, essa reflexão gira em torno da dicotomia entre individualismo e coletividade, misantropia e comunidade. Fala sobre a perda da esperança, mas também sobre a persistência – continuamos aqui, resistimos tanto às opressões sistémicas quanto às que surgem do próprio ego. No fundo, é isso que queremos transmitir: o choque de realidade, a destruição do que já não nos serve e o renascimento do que há de melhor, ou pior, em nós.



Há algum elemento na vossa sonoridade que consideram uma marca distinta da banda?
Riffs nervosos e rápidos são uma característica, sem nunca perder o groove no meio da carcaçada, o que torna Queimada uma cena pesada e direta mas ao mesmo tempo “dançável”.
Além disso, a solidariedade sempre foi uma pedra angular, mas nem sempre é garantida.
Como veem o atual cenário para novas bandas DIY? Sentem um verdadeiro apoio mútuo ou ainda existem barreiras a ultrapassar?
Honestamente, no contexto do DIY, as únicas barreiras reais são as sistémicas e financeiras. No entanto, há um apoio mútuo incrível – entre bandas, promotoras, amigxs e espaços. Especialmente no Porto, criou-se um verdadeiro microclima de entreajuda no que diz respeito a concertos. Não que antes não existisse, mas agora essa solidariedade está mais evidente e pronunciada do que nunca, e isso é simplesmente incrível.
Feminismo na Cena
O punk sempre se apresentou como um espaço de resistência, contestação e liberdade. No entanto, a prática nem sempre acompanha o discurso, e muitas vezes, espaços underground continuam a reproduzir exclusões e desigualdades. Assim como a inclusão de mulheres e pessoas dissidentes de género na música continua a ser uma luta, mas nem sempre acontece de forma genuína.
Sendo uma banda formada apenas por mulheres, quais são as maiores contradições que sentem no meio punk em relação ao feminismo?
Esta questão está profundamente ligada a um artigo científico que a Pepper escreveu, que será apresentado este ano e possivelmente publicado no próximo. No cerne da questão, o meio punk deveria ser alvo de um duplo escrutínio: apesar de pregar a inclusão, continua a falhar na criação de espaços verdadeiramente inclusivos para mulheres – sejam elas cis, trans, imigrantes ou nativas. Na cena portuguesa, os principais obstáculos à participação feminina continuam a ser a sexualização e objetificação, a violência e hostilidade, a condescendência e invisibilidade e, por fim, a solidão. A solução passa necessariamente pela coletividade, pela construção de redes de apoio e resistência que possibilitem uma reivindicação do espaço de forma efetivamente transformadora. Só assim será possível alcançar a tão desejada mudança cultural e social pela qual lutamos há tanto tempo.
Como distinguem a inclusão real de mero tokenismo dentro da cena?
Boa pergunta. Dentro da cena punk, a presença de mulheres em palco é tão escassa que questionar esse tipo de coisas só adiciona mais pressão sobre a mulher. No entanto, não seria descabido dizer que, de certa forma, todas as mulheres em palco acabam por ser vistas como um token no que toca à representatividade. Quer queiram, quer não – e isso é absolutamente injusto – a verdade é que, aos olhos do público, essa mulher está ali a representar todas as mulheres. Algo que nunca aconteceria a um homem.
“Female-fronted” não é um género musical, mas muitas bandas lideradas por mulheres continuam a ser rotuladas dessa forma.
Porque acham que esse rótulo persiste e como pode ser desconstruído?
Apesar de gozarmos sempre com o termo female-fronted, entendemos que muitas vezes não nasce de um lugar de maldade. É quase uma forma de discriminação positiva. A hegemonia no punk nacional ainda é, em grande parte, composta por bandas de três ou quatro gajos, onde, quando há uma mulher, geralmente assume o baixo – sem que se espere necessariamente que componha, apenas que acompanhe as direções dos restantes membros.
Quando surge uma banda liderada por uma mulher, o que fazemos? Destacamos esse facto ou tratamos como algo normal, misturando-a com todas as outras bandas? Ambas as abordagens são válidas. Esse rótulo surgiu numa altura em que havia menos ferramentas para discutir estas questões, e a reflexão sobre o tema ficava sempre confinada aos mesmos círculos. Mas acreditamos que a desconstrução só acontece através da normalização.
Olha, por exemplo, para o festival K-Town: o rácio entre bandas com mulheres e outros géneros minoritários é tão equilibrado que ninguém precisa de anunciar se uma banda tem mulheres ou não – e é exatamente nessa direção que devemos caminhar.



Sobre o Futuro de Queimada:
Com a estreia vincada, Queimada está prestes a incendiar a cena , mas toda a chama precisa de combustível para crescer.
Olhando para o futuro, quais são os vossos próximos passos? Já têm planos para lançamentos ou, por agora, o foco será nos concertos e na construção de uma presença ao vivo?
Ainda estamos a adaptar-nos à dinâmica interna e aos novos ambientes, sem dúvida, na construção de uma presença artística capaz de dominar cada espaço com a nossa intensidade. Embora estando ainda em fase de composição, já pensamos em dar os primeiros passos em termos de gravação. É importante começar a materializar as nossas ideias de forma mais concreta posto isto iremos gravar aí umas demos, que serão fundamentais neste processo para dar a conhecer o nosso som, claro de uma forma mais crua, mas já com um cheirinho da ideia de som que queremos alcançar, e consecutivamente gravar um EP/Álbum.






Dividir palco com outras bandas é mais do que um momento, em certos casos, acaba também por ser uma afirmação.
Se pudessem escolher qualquer banda, de qualquer época ou lugar, com quem gostariam de partilhar essa energia?
Pepper: Plasmatics ou L7
Bea: Devil Master ou Sacrilege
Maria: Britney Spears ou Igorrrr
Por fim, toda banda nasce com um impulso, ou urgência.
Se a Queimada fosse uma faísca de revolta dentro da música, qual seria a chama que querem acender?
A faísca já incendiou o rastilho, e as labaredas espalham-se sem pedir licença. Queremos que este fogo devore tudo o que nos sufoca – as velhas estruturas, os muros erguidos pelo conformismo, as cinzas do que já não nos serve. Que arda a passividade, que se incendiem as certezas podres. E que, das brasas incandescentes, surja um novo terreno fértil, onde a subversão e a resistência não sejam apenas um ato de sobrevivência, mas uma forma de viver.
Lançar uma banda em 2025 implica enfrentar desafios num cenário em constante transformação, mas para elas, o fogo da resistência já arde há muito. Criado como um espaço de identidade, energia e luta, o trio não só ocupa o palco, como o redefine. Depois de incendiárias estreias no Porto e Braga, Bea, Maria e Pepper preparam-se para levar Queimada até à capital, e o rastilho que agora começa a arder promete incendiar tudo ao seu redor.
