"Aspirina: Uma Dose de Caos Sonoro que Cura pela Intensidade"
Por Mia Nieves
16 – Janeiro – 2025
Enquanto que a aspirina tradicional promete acalmar dores, o evento homônimo no Maus Hábitos, no Porto, subverte essa ideia e faz exatamente o oposto — intensifica.
A Aspirina, de seu nome metafórico, é uma celebração do caos organizado, uma resposta ao que muitos procuram após tempos de isolamento: uma válvula de escape, uma descarga de tensão e emoção.
Surgiu no rescaldo do isolamento pandêmico, quando o “Punk à Mesa” trouxe o peso das guitarras para um público confinado a cadeiras alinhadas. O que parecia ser uma solução temporária evoluiu para uma rubrica dedicada a amplificadores no limite, guitarras descomplicadas e ao impacto profundo do som pesado.
Com o passar do tempo, a força do ruído sonoro clamava por um espaço próprio. Foi assim que surgiu a Aspirina — batizada por Bruno Esteves, músico multitarefas com “19 bandas e mais uma”. Quando ele deixou o projeto, a missão continuou nas mãos firmes de Luís Salgado. O conceito era claro: uma rubrica dedicada às guitarras sujas, aos amplificadores no limite, e ao poder que o barulho proporciona.
Mais do que um palco, a Aspirina tornou-se um verdadeiro ponto de encontro e confronto, onde a música pesada gera uma catarse sonora, conectando bandas em todas as etapas e criando uma rede sólida de resistência e identidade no cenário underground. Sob a liderança de Luís Salgado, a Aspirina intensifica o seu propósito, tornando-se um local onde a música, como o caos, é organizada de uma forma pura que cada segundo em um momento de verdadeira intensidade.
No palco da Aspirina, encontram-se tanto bandas consolidadas que carregam na bagagem uma presença marcante na cena, como Besta, Scatter, Borf, Vürmo (entre tantas outras), quanto recém nascidas que tocam o seu primeiro acorde em público. – Foi o caso dos 3 Warning Shots a banda portuense que se estreou na terceira gamela. Estamos perante um espaço onde o som deixa de ser só audição e se transforma em experiência física.
“Apanhar bandas fresquinhas” é mais do que um desafio; é uma forma de dar voz ao novo enquanto se honra o legado. – Luis Salgado
Por falar em Vürmo, foram os protagonistas da décima primeira edição, juntamente com Repugnator. – Fomos lá malhar uns finos, e sentir o peso dos picos, das caras pintadas e da sinergia, catártica, trevosa e punk n’ rollada. – Bonito!







Quanto ao Porto, com os seus espaços icônicos como Maus Hábitos, Barracuda, Woodstock 69 e Ferro, é solo fértil para a cena. É um lugar onde a resistência cultural prospera e onde o barulho encontra o verdadeiro significado de casa. Mas a Aspirina não se contenta em ser só um espaço, Acaba por ser um equilíbrio deliberado entre extremos — entre o comercial e o alternativo, entre a “finesse” e a sujidade.
No entanto, o evento não é apenas um antídoto para a monotonia. É um ponto de encontro entre universos distintos, onde o merch das bandas rompe com a uniformidade do mainstream, fomentando conexões improváveis e diálogos essenciais, “Porque quando te habituas já não discriminas”, remata Salgado.
É também uma celebração do gesto físico da música: guitarras que respondem ao movimento do corpo, amplificadores que traduzem energia bruta em arte sonora. Numa altura onde o “gesto físico” do rock parecia ofuscado por beats digitais, a Aspirina ajuda a reacender essa conexão tangível. Carrega consigo a nostalgia de um Porto mais “sujo”, quando espaços como a Casa Viva impulsionavam energia bruta. Mas também projeta o futuro: um lugar onde os chabalos, influenciados pelos irmãos ou pais, descobrem o poder das guitarras e se tornam a próxima geração de entusiastas do barulho.
Aqui, a promessa não é de silêncio ou repouso, mas de uma experiência sonora intensa, onde o barulho é tanto o sintoma quanto a cura. Com uma série de concertos que celebram o barulho e a energia bruta das bandas que habitam no underground, “Aspirina” é um convite para abraçar o caos e transformar o desconforto em arte.—– O som não alivia, mas provoca, cura pela intensidade e redefine o que significa “alívio” para os amantes da música alta e muito ruidosa. É uma pílula sônica para quem não teme o impacto de cada acorde. Seja para quem procura uma ruptura com a monotonia ou para os adeptos das sonoridades mais extremas.
É reação e ação. Uma dose crua, necessária para equilibrar a overdose de sons polidos. Aspirina como antídoto para a superficialidade sonora. Uma dose crua, necessária para equilibrar a overdose de sons polidos, sendo um lembrete de que a música, como a vida, é mais intensa quando desconfortável,refletido num evento que ecoa não só nos ouvidos mas na alma de quem se atreve a ouvir.
