Mangualde: "A Festa"

Texto por Viviana Coelho

Imagem por Vivian

16 – Abril – 2026

Mangualde instala-se no mundo com um álbum novo chamado “A Festa”. A sair a 17 de abril de 2026, sobressalta com um som dissonante, nervoso e caótico. Cantado em Português mas também pode ser para inglês ver.

Formados no Porto em 2025, o que começou como um escape paralelo rapidamente se transforma num organismo próprio, instável e em mutação constante. O álbum mostra uma matura e clara intenção na criatividade, originalidade e som próprio. Um peso que procura tensão, conforto nas melodias, tudo envolto num sonho febril e cinematográfico, um colapso rápido de fricção. Entre o crust, sludge, doom e black metal , as quimeras de camadas não se atropelam mas contaminam-se mutualmente.

“A Festa” funciona quase como experiência. Uma sucessão de momentos intensos, fragmentados, onde a violência sonora convive com uma estranha lucidez emocional. Ansiedade, frustração, necessidade de ruptura. Tudo isso atravessa o disco do inicio ao fim.

Ao vivo, essa energia amplifica-se. Mangualde não parece interessado em repetir fórmulas ou entregar sets confortáveis. Há risco, instabilidade e é precisamente aí que a coisa ganha força. Não é sobre controlo, é sobre intensidade. Ao lado de outras bandas da nova geração, há uma mudança perceptível em menos foco na “brutalidade” óbvia, mais atenção à dissonância, à emoção e à estranheza.
Assim falamos com a banda sobre o seu manifesto para este novo lançamento :

Como é que nasce a banda Mangualde? Foi um projeto pensado ou uma colisão inevitável de pessoas e influências?

E o nome vem de alguma influência da cidade?

A banda surgiu há pouco mais de um ano, dentro do projeto Ekcetera do qual António, o Jorge e o João (ex baixista) fazíamos parte, e no qual sentimos uma necessidade de fazer um projeto em paralelo para explorar outras sonoridades.

 A sonoridade e o projeto de forma geral foram algo bastante instintivo e que se está constantemente a reinventar com o que nós sentimos que precisamos de fazer e de exprimir. Quanto ao nome, surgiu de piadas com pouco sentido, mas a meu ver Mangualde é um sítio novo, que não conhecemos e que estamos a descobrir com o tempo (nunca fomos a Mangualde na verdade). – António

Vocês descrevem o vosso som como algo difícil de catalogar, isso é intencional ou simplesmente não gostam de rótulos?

Acho que genuinamente não conseguimos catalogar o nosso som, temos tantas influências, ideias, sonoridades num projeto de meia hora, que chega meio ano depois do EP e já está noutro universo sonoro, quase completamente
desconectada. – Jorge

Se “A Festa” fosse um filme, o que é que aconteceria na cena final? E quem poderia entrar nessa festa e quem era proibido de entrar?

Acho que no fim só iria toda a gente para casa mesmo que a festa tivesse sido cheia de mortes, violência, loucuras, etc… seria uma festa de outro mundo, mas acabaria como qualquer outra, seriam proibidas de entrar pessoas que glorificam
o passado, policias, falsos mártires e indiferentes. – Jorge

A cassete VHS de “A Festa” vem com aviso parental tipo filme proibido qual seria o texto?

“Tiagovski pastilhado no gate” – Banda

Acham que a música extrema ainda consegue chocar ou atualmente já estamos todos anestesiados? E como isso vos influencia para fazer coisas como a nova geração ?

Eu acho que nunca pensamos na nossa música como algo com shock value,temos só tentado fazer coisas significantes com valor artístico. Têm cada vez mais aparecido bandas a fazer coisas interessantes cá em Portugal como os Roy Batty, Prado, Oka, entre muitos outros, o que vemos como um grande passo nesta direção e um movimento do qual queremos fazer parte, vemos nestas bands que o pessoal opta por dissonância e sonoridades mais emo ao invés de coisas mais
downtuned e genericamente mais “pesadas” (que eram mais populares na cena hardcore portuguesa), o que nos leva a pensar que realmente existe um sentimento coletivo para manter viva a procura por sonoridades diferentes e de
transmitir mensagens profundas que falem com o mundo atual. – Banda

Sentem que o caos no vosso som reflete o mundo atual ou é uma fuga dele?

O nosso som é como se fosse uma lente pra digerir tudo que estressa a gente. O país estar cada vez mais em cacos com o custo de vida alto e direitolas tomando conta de tudo, o estresse de tentar se libertar do passado pra seguir em frente,inimizades, repressão da nossa raiva, indignação com espaços com pessoas hipócritas e cheias de santimónia, dedicação ao ato de festejar e por aí vai. – Domi

O que é que o público pode esperar de um concerto de Mangualde? Catarse, desconforto ou destruição total?

Pode se esperar absolutamente tudo, pelo o que eu tenho visto… Eu não confio muito na parte de ter desconforto mas que muita gente fica eufórica? Isso é a única garantia que posso dar – Domi

Nunca sabemos ao certo porque tentamos sempre nunca ter dois concertos
exatamente iguais, mas não será algo confortável nem fácil de digerir, esperamos. – António

Qual foi até agora o momento mais caótico ou memorável que tiveram enquanto banda?

O concerto que demos na sirigaita com os andaime em outubro do ano passado foi bastante caótico para o bom e para o mau. Foi o nosso primeiro concerto com a Domi, e ainda estávamos a tentar encontrar a sonoridade deste álbum, então foi um set bastante misto e até estranho, diria. Houve enganos, coisas que nãocorreram como estávamos à espera mas no fim foi uma grande festa, e foi dosnossos concertos mais intensos até hoje (ah e ainda vimos um Gig fenomenal dos amigos Andaime). A noite acabou comigo quase inconsciente num flixbus para o Porto enquanto o Jorge falava do quão fixe foi a noite. No geral foi uma loucura completa, e adorávamos voltar a tocar lá. – António

Depois, mais pro fim do ano, houve o Festival Emergente na BOTA dos Anjos. Tive que tocar de luva na mão esquerda por ter esmagado um dos dedos no início do mês. Acho que a parte mais especial dessa noite foi eu ter tido mais coragem pra me soltar um pouco e ser mais sociável.Conversei com pessoal das Lesma e dos Chat GRP, nossos colegas da noite de festival, e me diverti muito. – Domi

Se Mangualde fosse um objeto encontrado numa cave abandonada, o que seria?

Acho que seria um álbum de fotos. – Banda

O que é que querem que alguém sinta depois de ouvir “A Festa” do início ao fim? E se tivessem que transmitir uma mensagem a quem vos ouve pela primeira vez , qual seria ?

Acho que gostava de transmitir às pessoas que não tem de carregar pessoas ou bagagem que não lhes diz nada, que podem deitar o lixo fora e libertarem-se delas. – Jorge

Quais são os próximos passos para Mangualde após o lançamento do álbum? Desde concertos , novas malhas , merch release… ?

Temos imensos concertos marcados! Começamos por dia 22 na Casa Capitão em  Lisboa, com entrada livre e dia 01/05 no Ferro Bar no Porto! Podem encontrar no nosso instagram o resto das datas (@mangualde2016), há datas ainda por
anunciar. Temos umas surpresas para mostrar nestes concertos, e provavelmente teremos pela primeira vez, TSHIRTS À VENDA!

Que desafios enfrentam enquanto banda emergente neste circuito? Quais as maiores dificuldades para uma banda do underground nos dias que correm?

Infelizmente a situação tem estado cada vez mais complicada para as bandas do underground de forma geral: há cada vez menos salas (especialmente aqui no Porto) e torna se cada vez mais difícil irmos tocar a outros sítios sem ter despesas.
Como banda emergente o nosso desafio principal é levar a nossa música até as pessoas e tentar impacto o maior número de pessoas, mesmo tendo em conta a precariedade que cada vez mais ataca este circuito em termos de condições.
Apesar disso, achamos que com um sentido de comunidade e de união tudo se ultrapassa, e acima de tudo é preciso ser realista sobre as nossas expectativas e ter uma grande vontade. – António

E por fim , se tivessem de substituir um instrumento por um objeto random, o que escolhiam?

Substituía a Bateria pela pastilha que o tiagovski tomou no gate on 5ive #Trenches – Jorge

Ou um theremin ou uma esfregona ensopada com água e lixívia. Sem meio termo. – Domi

Trocava a guitarra por um balde de espuma do bar Seven Eleven na Cordoaria – António

 

“A Festa” acontece e abre as portas para o ruído entrar. Disponível em todas as plataformas a partir de dia 17 de Abril .